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A Sabiá.... e .... O morcego

A sabiá...

João Carlos da Costa

Acordar de madrugada ou pela manhã, assustado ao som de buzinada de carro, barulhos e gritos de pessoas nas ruas e, mais comumente, com o apito de trens, que passam em vias urbanas, acaba sendo um tormento na rotina de quem precisa levantar cedo para ir trabalhar. Nessas circunstâncias, ouvir o canto de um sabiá quando o dia ainda não nasceu é um bálsamo. E quando isso se torna frequente, aos amantes da natureza, sequer chega a irritar, de tão bonito e cada vez mais raro. Para quem não conhece, no mínimo é um curioso. Para quem conhece é gratificante ouvir um canto audível facilmente em locais onde a natureza prolifera e não em meio a uma área onde só existem edifícios e pouca área verde.

O lindo canto da sabiá (já explico o porquê de ser a sabiá e não o sabiá), quando ouvi pela primeira vez naquela madrugada, foi tão maravilhoso que não consegui dormir nas horas seguintes, pois ela o fez diversas vezes, em intervalos. Fiquei surpreso pelo horário do início do canto (três horas da manhã). Acho que ela perdeu a noção do tempo!! Senti no canto daquela ave um som alegre e não angustiado. Não entendi a alegria, porque ao lado do prédio onde resido tem um terreno onde havia um pequeno bosque, com árvores frutíferas, as preferidas dos passarinhos, araucárias e outras rasteiras que recentemente foram derrubadas com motosserra. Ficou apenas uma fração delas e um arbusto. Com isso, muito dos pássaros que gorjeavam naquele pequeno espaço foram para outros locais... menos a sabiá, que permaneceu por perto. Após dias seguidos e curioso para saber de onde vinha o alegre canto da sabiá vasculhei o condomínio e descobri, protegido e estruturado de forma bastante delicada, como uma dona de casa quando arruma a cama, um ninho bem acomodado entre duas juntas da liga de concreto, no teto da garagem do estacionamento e a “mamãe” sabiá chegando com mais um pequeno ramo para completar a grande obra e acomodar os seus futuros filhotes. Daí o motivo da alegria contagiante transmitida pelo som inigualável do seu canto. Tão sábia a sabiá. Poderia ter buscado a árvore ou o arbusto mais próximo, mas estrategicamente preferiu a “frieza” do concreto, com maior segurança e conforto, como a “elitizar” a sua própria vida.

e o morcego

Dia de sol, um pouco nublado, como sempre acontece em Curitiba. De repente, na Travessa da Lapa, quase esquina com a Rua Marechal Deodoro, onde existe uma agência da Caixa Econômica que possui ma entrada um canteiro, cercado por uma mureta azulejada em tom azul escuro que sustenta um minijardim com uma pequena árvore e folhagens. No entorno dela, uma aglomeração e o burburinho de adultos e algumas crianças bem-vestidas, aparentemente de classe média. Duas delas gritavam, estupefatas: “´OLHA O BATMAN. OLHA O BATMAN”, em alusão ao herói das estórias em quadrinhos. Tratava-se de uma brincadeira, por acaso? De longe, nada se percebia. Somente com a proximidade era possível saber o verdadeiro motivo de tanta agitação. De perto, o que se pode observar foi um pequeno morcego que se debatia e parecia assustado pela presença das pessoas à sua volta. Um local não apropriado para um mamífero desconhecido para alguns, acostumado a viver em grutas, cavernas escuras e nos matos e que, de repente, se vê preso nesta selva de pedra e com poucas possibilidades de sobrevivência, à mercê da morte pelo fato de estar fora do seu habitat e possível vítima da maldade ou ignorância daqueles que vêem neste animal com aparência um pouco assustadora, o símbolo do “vampirismo” e da bruxaria.

Esses exemplos de migração em parte é culpa do “boom” na construção civil nos últimos anos, ocasionado pelas obras de construtoras que buscam novos campos para investimento e que tem provocado o desmatamento de áreas onde muitas aves, insetos e pequenos animais e roedores “marcavam ponto” diariamente, que ficaram diminuídas, forçando-os a procurar outros locais. Não raras vezes algumas pessoas têm encontrado dentro de casa cobras, pequenos símios e roedores, lagartos e até outros de grande porte. Grandes capitais bastante arborizadas, como Curitiba, têm sido atingidas por este fenômeno. São milhares de prédios de condomínios que tomaram conta das proximidades de parques e da periferia da cidade, onde ainda existem áreas verdes que resistem ao avanço do progresso.

O fato de a sabiá montar um ninho numa garagem de concreto e o aparecimento de um morcego em pleno centro da cidade, parecem sinalizar uma situação de adaptação forçada ao meio ambiente, atualmente depredado e carente do respeito dos seres humanos, a cada dia mais robotizados pelas adversidades de uma vida estressante e egoísta, consumidos pela ganância imensurável e inconsequente.

João Carlos da Costa

Bel. em Direito (aprovado na OAB), Bel. Químico, Professor e Escrivão de Polícia. F. 9967-3295 e-mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

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