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Penitenciária de Vila Velha com detentos de prisão vencida na mira de comissão da Assembleia Legislativa

Serão solicitadas informações à Sejus para explicar a situação em busca de diminuir a superlotação nos presídios capixabas

penvilavelhaA Comissão de Segurança e Combate ao Crime Organizado da Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales) vai pedir informações à Secretaria de estado de Justiça (Sejus) sobre permanência de detentos com prisão vencida no sistema prisional do estado. A medida foi anunciada na manhã desta segunda-feira (8).

A necessidade das informações, segundo membros da comissão, se deve a uma inspeção realizada no dia 28 de março, na Casa de Custódia de Vila Velha (Cascuvv), na qual foram encontrados internos com permanência vencida e que poderiam terminar o cumprimento da pena no regime semiaberto.

Segundo o deputado estadual Danilo Bahiense (PSL), que preside a comissão, este tipo de medida desafoga a superlotação dos presídios capixabas, que possuem déficit de quase 10 mil vagas. 

“Lamentavelmente, presenciamos celas abarrotadas, em que deveriam custodiar seis internos, mas tinham 16, e em péssimas condições, sem higiene e as devidas iluminação e ventilação [...] Na semana passada, um preso foi flagrado traficando dentro da Cascuvv pela Comissão de Segurança. Também havia internos com cadeia vencida e outros até com alvará de soltura já dado, mas que não haviam sido liberados”, disse o deputado.

Após o anúncio da medida, o deputado e também membro da Comissão Marcelo Santos (PDT) solicitou fosse feito pedido de informações ao secretário de Estado da Justiça, Luiz Carlos Cruz, quanto à prática de presos com permanência vencida continuarem nas cadeias. A ação foi aprovada pelos membros da comissão. “A Comissão deve solicitar, ao secretário de justiça, informações sobre essa prática comum no sistema prisional, em um prazo de até dez dias, sob pena de crime de responsabilidade, caso não haja retorno do secretário”, pontuou o deputado.

Fonte: https://www.folhavitoria.com.br

Grupo busca alternativas de trabalhos para mulheres egressas do sistema prisional

r0804O grupo de trabalho que estuda alternativas para a criação de postos de trabalho voltados para egressas do sistema penitenciário paranaense se reuniu na quarta-feira (3), no prédio do Fórum de Execuções Penais, em Curitiba. O tema do encontro foi a definição de ações voltadas para mulheres monitoradas que encontram dificuldades de voltar ao mercado de trabalho.

“As dificuldades das mulheres em conseguir uma ocupação econômica geram problemas sociais sérios, pois muitas têm filhos e precisam arrumar formas de sustentar as famílias”, afirma Isabel Kugler Mendes, presidente do Conselho da Comunidade da Comarca da Região Metropolitana de Curitiba – Órgão da Execução Penal. “É preciso criar políticas públicas para atender essas pessoas. Precisamos de projetos possíveis para combater esse flagelo nacional”, ressalta Elisabete Subtil de Oliveira, coordenadora do Conselho.

Fazem parte do grupo representantes do Conselho da Comunidade da RMC; Defensoria Pública; Tribunal de Justiça; Universidade Federal do Paraná; Escritório Social; Patronato Penitenciário; e o Departamento Penitenciário. O próximo encontro será no dia 25 de abril.   

Fonte: conselhodacomunidadecwb

Discriminação de gays na prisão: Com pratos marcados e rejeitados por facções, presos LGBT sofrem com rotina de segregação

r0104   Detentos LGBT dizem que heterossexuais não aceitam beber no mesmo copo, comer no mesmo prato ou até mesmo usar a mesma vassoura; para evitar confusões utensílios são queimados ou furados.

O agente penitenciário traz um saco transparente com algumas caixas e o coloca em cima da mesa. Em instantes, a sala do Centro de Detenção Provisória Pinheiros 2, na zona oeste de São Paulo, está repleta de pincéis e maquiagens.

Grazy, Chica e Léia penteiam os cabelos, passam blush, batom, sombra e fazem os últimos retoques nos cílios. A entrevista para a BBC News Brasil é considerada por elas um "dia de princesa". Uma das raras oportunidades em que elas podem passar maquiagem e ficar "montadas".

Mas a realidade nos raios - conjuntos de celas - do CDP, na zona oeste de São Paulo, é bem diferente.

A dez grades da calçada da marginal Pinheiros, a população LGBT carcerária enfrenta incontáveis restrições. Um gay, por exemplo, não pode tomar água no mesmo copo do que um hétero ou usar o mesmo prato. Também não pode dividir o mesmo cigarro. Até mesmo encostar na vassoura usada para varrer o pátio do presídio é visto como um insulto pelos outros presos. As regras são rígidas e suas justificativas carregam preconceito e ignorância.

"É machismo da parte deles. Um preconceito bobo. Acham que o homossexual pratica sexo oral e são pessoas que não têm um certo cuidado. Eles pensam: 'Vai que você praticou um sexo oral e eu vou dividir um cigarro com você. Eu vou estar fazer um sexo oral de tabela'. É esse tipo de pensamento", explica Leonel da Silva Lopes, a Léia, que cumpre pena por furto e estelionato.

Crimes cometidos, segundo ela conta, para sustentar seu vício em cocaína.

"Eles dizem que é um procedimento que vem das antigas, dos antigos criminosos. Por causa de uns, todos têm que seguir isso. Na sociedade, a gente vai em um bar e bebemos no mesmo copo, que muitas vezes nem é bem lavado e ninguém reclama", diz Léia.

Para que não haja confusão, todos os objetos usados pela população LGBT têm marcas a fogo ou são perfurados, além de serem guardados em prateleiras específicas. Antes de entrar no banheiro, os gays também precisam dar gritos para anunciar sua chegada e não correr o risco de ver um preso hétero sem roupa. Pesquisadores disseram que quebrar alguma dessas regras pode levar até à morte em alguns presídios do país.

Durante mais de três horas, as três contaram com a voz firme e de maneira franca como é ser LGBT em um presídio masculino. E resumem: "é ser o excluído entre os excluídos". A entrada da reportagem da BBC News Brasil no presídio foi autorizada pela Justiça. A visita foi acompanhada pela diretora de saúde da unidade, uma assessora de imprensa e agentes penitenciários.

Com o cabelo raspado e um óculos com armação azul repousado sobre a testa, usado apenas como adereço, Léia é a representante LGBT na unidade visitada pela reportagem. Cabe a ela instruir os presos homossexuais que chegam sobre as regras da cadeia.

Ela conta que a intenção é criar um ambiente com boa convivência e respeito entre os internos, o oposto do que ela diz ter encontrado em sua primeira passagem pelo sistema penitenciário, 19 anos atrás. Sem opção de trocar de cadeia, Léia conta que foi desrespeitada e sofreu muito preconceito nas passagens que teve por presídios comandados pelo PCC.

"A gente tinha que costurar, arrumar a cela. Nunca me oprimiram ou bateram, mas eu sentia preconceito por parte deles", conta.

Na unidade onde ela está hoje, chamada de oposição por não ter membros do PCC, ainda são impostas as mesmas regras de segregação, mas os presos têm mais respeito à população LGBT. Parte chega a dizer que só as obedece para não contrariar os companheiros de cela.

"Certa vez, um ladrão falou para mim: 'Tem uma menina que vem me visitar que é garota de programa. Eu vou saber o que ela fez na rua? Eu a beijo na boca. Eu não bebo no mesmo copo que você não porque eu quero, mas porque os demais criminosos exigem isso. Se eu passar a beber no seu, eu vou passar a beber (no mesmo copo) definitivamente'. Eu achei até bonito da parte dele", conta Léia.

Ao lado de uma pilha de livros, ela conta que a biblioteca é o seu lugar preferido no presídio. Suas obras preferidas são os chamados espirituais e também os de autoajuda, como Paulo Coelho e Augusto Cury. Mas também lê Sidney Sheldon e Stephen King. Léia afirma que os livros a tornaram mais forte para encarar a vida de isolamento. Mas se emociona ao lembrar de sua mãe, de 73 anos, que sai de Salvador e percorre 2 mil km para visitá-la uma ou duas vezes ao ano.

"Quando ela cruza o portão, a emoção é muito grande. Fico feliz por ela estar viva, mas triste de eu estar preso e minha mãe tendo que enfrentar filas, de presenciar toda aquela situação de vários jovens presos, para me ver. Isso me deixa deprimido. Mas isso me incentiva a sair, mudar de vida e retribuir um pouco por tudo o que ela fez por mim", afirmou.

Léia sonha em deixar a cadeia e morar perto dela, em Salvador. Mas seu maior desejo a curto prazo é que a população LGBT tenha o "direito de cumprir dignamente o que nós cometemos para que amanhã possamos estar com nossos familiares e nos tornar cidadãos melhores."

Doutorando em sociologia pela Universidade Estadual do Ceará (Uece), Francisco Elionardo de Melo Nascimento diz que antes do surgimento de facções criminosas no sistema penitenciário, os demais presos queriam estar próximos à população LGBT. Hoje, até mesmo a aproximação é vista como uma falta grave.

"A convivência com os homossexuais era disputada por questões afetivas. Como não havia visitas íntimas, era muito comum as relações com os homossexuais. A população LGBT também tinha a função de ser uma dona de casa, uma faxineira na cadeia. Os demais presos os viam como algo feminino, dedicado a cuidados do lar, enquanto eles tinham a função de provedores", relata o pesquisador.

O pesquisador diz que um dos principais motivos de tamanha restrição imposta à população da comunidade LGBT é colocar a masculinidade dos membros de facções à prova.

"O fato de uma pessoa trans impactar nessa masculinidade também é um reflexo do que acontece do lado de fora das cadeias. Não é possível entender a prisão como um ambiente isolado. A onda de conservadorismo presenciada no país também impacta do lado de dentro das prisões", afirma o pesquisador.

'Para não seduzir os caras'

Assim que um preso chega ao sistema penitenciário brasileiro, uma das primeiras perguntas que ele ouve é se ele faz parte de uma facção criminosa. Se não fizer, ele deve escolher uma sigla para se filiar. Mas essa não é uma opção para a população LGBT.

As facções não aceitam que nenhum de seus membros seja gay. Em cadeias dominadas por algumas das maiores facções do país, a segregação é ainda maior. Os presos LGBT não podem deixar o cabelo crescer ou usar short. Mesmo nos dias mais quentes, também não podem usar camisetas que deixem a barriga à mostra. Já os detentos heterossexuais podem ficar sem camisa.

Jairo de Jesus Oliveira Silva, de 29 anos, a Grazy, já passou por cadeias dominadas pelo PCC, por roubo, e hoje está em Pinheiros 2, de oposição. Ela diz que as restrições nas cadeias comandadas pela maior facção do país são tão rígidas que a população LGBT mal pode conversar com outros presos.

"Lá tinha muitas regras, a gente era oprimida. A gente tinha que ficar no canto, sem falar com ninguém. Só (podia falar) o básico, como pedir licença. Também não tomava banho com os caras. A gente não podia usar roupa curta, não podia passar um lápis na sobrancelha, um lápis no olho. Tinha que andar como menino, com bermuda abaixo do joelho 24 horas. Nosso cabelo tinha que manter sempre curto por causa dos caras. Para a gente não seduzir nem arrastar os irmãos (membros do PCC)", conta Grazy.

Para ela, o PCC age dentro dos presídios de maneira contraditória do que prevê o próprio estatuto da facção fundada em 1993. O texto divulgado entre os detentos e novos membros do PCC prevê que todos façam parte de uma "luta contra as injustiças e a opressão dentro das prisões".

"Eles falam que há igualdade pelo simples fato de o homossexual ter visita íntima. Hoje eles deixam, mas por obrigação, por causa das leis, não porque gostam. Eu já passei por lá e sei do que eu estou falando. A gente é tratado de uma maneira diferente que eles passam", conta Grazy.

Dilmar da Silva Soares, de 63 anos, a Chica, é natural de Pelotas, RS, e tem diversas passagens no sistema carcerário, muitas por roubo - a maior parte das vítimas seus próprios clientes como garota de programa - e até por tráfico internacional de drogas quando tentou embarcar com 17 kg de cocaína para Amsterdã, na Holanda.

Ela conta ter visto cenas de desrespeito, agressões e até mortes durante os anos que passou na cadeia. E ainda hoje presencia cenas de preconceito na unidade de Pinheiros 2.

"Eu pegar a vassoura para varrer o raio, não posso. A boia, alimentação, é eles que servem. Já aconteceu de passar um pão a mais. Tem que devolver porque é contado. Eles já não pegam porque eu peguei com a minha mão, então eles deixam ficar", conta Chica.

Ela conta que nas décadas de 1980 e 1990 era tratada como "uma rainha" ao chegar no sistema penitenciário e lembra sua chegada à Casa de Detenção Carandiru, onde uma chacina deixou 111 mortos em 1992.

"Éramos consideradas as rainhas no Carandiru. A gente chegava, casava, comprava uma cela e vivia com o preso. Ele me dava tudo do que eu precisava, mas eu não podia falar com mais ninguém. Quem não casava, podia se prostituir", lembra.

Para evitar o convívio com presos do PCC, hoje boa parte da população LGBT pede transferência para uma cadeia de "seguro" ou "oposição", como são chamados os presídios onde não há membros da maior facção do país.

Uma delas é a unidade Parada Neto (Guarulhos, na Grande São Paulo), dominada pelo Comando Revolucionário Brasileiro da Criminalidade (CRBC), e também Pinheiros 2 e 3, na capital paulista, Balbinos 1 e Guareí, ambas no interior.

Por outro lado, o governo diz que não há nenhuma divisão no sistema penitenciário feminino por conta de orientação sexual.

Na intimidade da cela

Uma vez por semana, as grades dos presídios se abrem para que familiares e amigos de presos possam levar comida e passar algumas horas na cela com eles. Esse momento é visto como sagrado para os detentos, já que é única oportunidade que eles têm para rever pessoas que estão nas ruas, ter uma refeição especial e principalmente ter visita íntima.

A Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) informou em nota que uma resolução de 2014 garante que todos os direitos da população LGBT sejam respeitados nos presídios, inclusive visitas íntimas. Mas nos presídios paulistas, apenas em 2018 o PCC mandou um aviso aos seus membros para que isso fosse permitido no Estado.

Especialistas, agentes penitenciários e os próprios presos entrevistados pela reportagem dizem que não importa quais leis sejam aprovadas pelo governo, pois dentro da cadeia as regras são ditadas pelas facções.

Outro exemplo é que apenas em 2007 o PCC passou a proibir o estupro de gays dentro das penitenciárias comandadas pela facção, segundo a pesquisadora Camila Nunes Dias, autora de livros sobre o PCC e pesquisadora do Núcleo de Estudos e Violência da USP.

"Desde então, quem tiver relações sexuais com gays também passa a ser considerado 'bicha', como são chamados pelos presos da facção. Antes disso, era admitido (o estupro). Hoje, ainda são obrigados a deixar a facção e serem transferidos para uma cela específica", afirma Dias.

A diretora de saúde do CDP de Pinheiros 2, Eliane de Souza, afirmou que o Estado não tem nada a ver com essas proibições impostas por facções.

"Essas questões, como não poder tomar água no mesmo copo, são internas deles. Para nós, são todas pessoas privadas de liberdade com os mesmos direitos. Mas eles (LGBT) merecem uma atenção especial. Eles vêm da sociedade e muitas vezes sofrem exclusão dentro da própria família. Chegam no limite do ser humano, no direito de ir e vir, e merecem atenção", afirma.

Ela diz que a unidade promove atividades e oficinas na unidade sobre cidadania, oferece roupas íntimas e tenta ao máximo tratar de maneira humanizada essa população. Na unidade, também é permitido manter cabelo comprido e todos chamam os gays e trans pelo nome social, inclusive os funcionários.

"Teve resistência dos agentes? Teve. Mas foram entendendo que tratar pelo nome social e atender as necessidades deles era melhor para toda a segurança. A gente também entende que segregar é um preconceito, então elas convivem com os heteros. À medida que o corpo funcional respeita, os presos respeitam também", diz.

A unidade de Pinheiros 2 tem capacidade para 793 pessoas, mas hoje abriga 1601 presos. Entre eles, 254 são autodeclarados LGBT, o equivalente a 15% de sua população carcerária. Segundo o Conselho Nacional de Justiça, São Paulo tem 236 mil presos. A SAP estima que entre 5 e 6 mil sejam LGBT.

O doutorando Francisco Nascimento, que também atua como agente penitenciário no Ceará, faz, ao lado de outros pesquisadores, um estudo nacional sobre a população carcerária LGBT e diz que cada presídio tem uma maneira diferente de lidar com a questão.

"As regras mudam de acordo com o espaço onde as prisões estão situadas. Há unidades do mesmo Estado, comandadas pela mesma facção, mas com regras diferentes. No Ceará, por exemplo, não é permitida nenhuma aproximação com gays. Quando há rebelião, por exemplo, os homossexuais são os primeiros a serem atacados, junto com criminosos que cometeram crimes tidos como 'proibidos', como estupro e pedofilia", afirma.

O pesquisador conta que certa vez, um grupo de presos do Estado chegou a decapitar esses presos, que incluíam gays. Foram gravados vídeos de extrema violência exibindo pedaços de corpos e compartilhadas imagens por aplicativos de mensagem de celulares com a família dos mortos.

A volta às ruas

Depois de cumprir durante anos uma pena cheia de restrições em um ambiente insalubre, os presos se deparam com o retorno às ruas e a busca por um emprego. Se o peso de ter no histórico uma passagem é considerado um entrave para um preso heterossexual, no caso dos LGBTs é quase um atestado permanente de desemprego.

"É complicado porque a gente sai sem chão. A gente sai direto para uma casa de cafetina, para a rua, se prostituir. Porque a gente não vai sair daqui e ir direto para um emprego. Até você correr atrás, tirar documentos de novo. E até você achar alguém que te dê um emprego é muito difícil hoje em dia", afirmou Grazy, que é natural de Belém do Pará e conta que a distância da terra natal é mais uma barreira.

A diretora de saúde de Pinheiros 2 diz que a unidade oferece curso de cabeleireiro e outras oficinas para que os internos aprendam uma profissão. Entre as atividades, eles fazem até mesmo ursos, que são doados para crianças do Hospital do Câncer.

"A gente quer que quando elas saírem daqui, tenham pelo menos um curso. Que fazer programas seja apenas uma opção delas", afirma Eliane Souza.

Chica diz que fazer os trabalhos na unidade, como o crochê, é uma terapia. Ela não recebe visitas, mas tem um namorado na unidade. Seu maior sonho é fazer uma cirurgia plástica.

"Coloquei silicone na face muito cedo, quando eu tinha 18 anos. É óbvio que a pele ficou flácida e caiu, então eu pretendo levantar. Eu quero ter um trabalho, por mais simples que seja. O importante é não voltar para a cadeia. Vamos supor, se eu procurar uma ONG e falarem você vai ser faxineira de escola, eu vou aceitar porque eu vou ter meu salário, condições de pagar por um teto e quero terminar meus estudos, terminar o ensino médio".

Fonte: uol

"Estamos em uma guerra ideológica para matar pobre", diz policial perseguido por criticar PM

“Somos treinados com o mantra bandido bom é bandido morto, mas nunca vi policial executar deputado bandido, juiz que vende sentença, senador chefe de tráfico” – confira o relato do policial militar

Aviso de Gatilho (Trigger Warning): depressão e suicídio*

Por Martel Alexandre del Colle

r2503Eu voltei para a polícia militar em 2016. O motivo e as circunstâncias são longos demais para se narrar aqui. Depois de todas as experiências que eu havia passado dentro da polícia eu havia voltado mais forte e determinado a fazer o que era certo. Fui colocado em um batalhão que cuidava da região metropolitana de Curitiba. Fiquei empolgado. Eu adoro ser policial, cuidar da sociedade, ajudar a fazer deste país um local mais justo. Certas partes de mim parecem terem sido feitas para isso. Eu fico calmo nas ocorrências de vulto, eu gero soluções rápidas e nunca tive uma ocorrência na qual se possa dizer que o procedimento adotado foi errado.

Chegando ao batalhão, eu assumi uma companhia. Algo novo para mim. Estaria no comando de muitos policiais. Considerei uma grande oportunidade. Comecei a realizar algumas mudanças: treinamento para todos os policiais, banco de horas, mudança na forma da escala. Havia conversado com um professor de jiu-jítsu e uma academia de musculação que ficava a poucos metros da companhia para que os policiais pudessem treinar no local com um preço diferente devido ao número de possíveis inscritos.

Isso durou menos de um mês. Fui enviado para a escala de coordenação de policiamento. Fiquei um pouco chateado, mas sem problemas. Policial militar é policial em qualquer lugar e função. Na função de coordenador percebi vários defeitos. Sempre fui assim, eu encontro as falhas com facilidade. A parte boa é que eu também encontro as soluções. Comecei a dizer alguns problemas que eu encontrava para a execução de um bom serviço aos meus chefes, juntamente com uma proposta para solucionar a demanda. Fui ouvido em partes e outras foram ignoradas. Quanto a alguns problemas eu sequer poderia tocar no assunto. Eram pesados demais e eu poderia sofrer represálias.

O tempo que fiquei na unidade, estagnado, vendo muitas coisas erradas, começou a me estressar. E quando eu digo “coisas erradas” não estou dizendo que eles não faziam meus gostos. Estou me referindo a distribuição de efetivo pela malha feita de maneira irresponsável, o que no final gera mortes e assaltos; refiro-me ao uso político das forças de segurança, realizando operações que aparecem muito, mas que não solucionam nada; refiro-me a vistas grossas para a corrupção policial, condenando os policiais novatos a experiências terríveis dentro da viatura; refiro-me a vistas grossas para execuções e torturas; refiro-me a métodos de fiscalização obsoletos e ineficientes; dentre outras coisas. Todos problemas sérios, que condenam vidas e que são de fácil solução. Tão fácil que eu apresentei uma solução para praticamente todos.

Meu estresse e desapontamento chegou a tal ponto que eu fui até a diretoria de pessoal da polícia e fiz uma proposta ao chefe: gostaria de ajuda para ir para outra unidade, caso isso não fosse possível, eu queria ajuda para solicitar minha saída da polícia. Eu não esperava nenhuma ajuda, estava certo que aquele seria meu último dia na polícia, mas eu me enganei. O oficial que me recebeu me ouviu. Contei todas as minhas frustrações para ele e ele entendeu. Resolveu então me mandar para um batalhão que fosse mais apegado a técnica e ao estudo. Enviou-me para uma unidade de policiamento escolar. Confesso que as circunstâncias da transferência me deixaram animado. Sempre sonhei com uma unidade policial voltada para a técnica, para o estudo e para o resultado de maneira humanizada.

Cheguei na nova unidade e fui bem recebido. Todos diziam que a unidade funcionava como uma grande família, onde todos se ajudavam e que sugestões eram sempre bem-vindas. Parecia um sonho se tornando real. Eu nunca havia trabalhado com policiamento em escolas, ou com prevenção de uso de drogas para adolescentes, etc. Fui até uma livraria e comprei uns dez livros sobre pedagogia, formas de se comunicar com crianças e adolescentes e como falar sobre drogas para adolescentes. Também pesquisei como as policias de outros países tratavam o policiamento para menores, e fui investigar sobre o programa DARE que é a base do PROERD que é aplicado aqui no Brasil.

Eu tinha medo de não chegar ao nível dos oficiais que ali estavam. Alguns estavam na unidade a mais de 10 anos, e eu só conseguia pensar que teria de ralar muito para chegar perto do conhecimento deles sobre policiamento para adolescentes. Acho que esse foi meu primeiro engano. Percebi que o conhecimento de parte do oficialato era baixíssimo, inadmissível para um batalhão especializado. Havia uma mistura grotesca de religião e orientações policiais. Quase tudo na unidade acabava com referências religiosas. Chegando ao absurdo de ocorrer uma pregação no meio de solenidades militares e escalas para comparecimento em igrejas. E aí começa a minha queda.

Eu decidi dizer o que considerava certo e não aceitar absurdos. A minha primeira porrada contra o sistema foi me negar a ir em um culto numa igreja católica para o qual eu estava escalado. Não fui porque o estado é laico, independentemente da minha religião. Não me doeria nada ir para o culto, mas eu sei que alguns policiais se ofenderiam. E eu não entrei na polícia para me defender, entrei para defender os outros, inclusive meus policiais. Eu disse a todos os meus policiais que nenhum deles era obrigado a ir e que poderiam dizer que eu passei tal informação. Muitos foram e disseram que temeram represálias contra mim.

Durante os meus estudos sobre o PROERD eu descobri dados nada positivos sobre o programa. Não há evidências científicas da eficácia do programa. Os estudos feitos sobre o programa americano mostram que ele é ou ineficiente ou contraproducente (adolescentes que passaram pelo programa usaram mais drogas na vida adulta do que os que não passaram). Além disso o PROERD era aplicado em escolas particulares enquanto escolas públicas ficavam sem o serviço; o treinamento era disperso e fraco, nos locais em que havia treinamento; o programa era engessado e pouco atualizado, agindo como um vetor de ideias conservadoras e não científicas; e estava também impregnado de religião.

Conheci vários instrutores do PROERD e posso dizer que a maioria tinha boas intenções e fazia o seu máximo. O erro estava na chefia que atuava voltada para si e não para a vida das crianças e adolescentes. Todos os erros que eu apontava eram para que crianças e adolescentes tivessem mais chances de uma vida feliz, e eu não percebia a mesma vontade por parte dos meus chefes. Peguei todos os dados científicos sobre o programa e levei para os meus chefes. A resposta deles foi: O PROERD NUNCA VAI ACABAR, POIS É UM PROGRAMA DE DEUS.

E eu disse, em algum momento, que queria acabar com o programa? Eu queria melhorá-lo! Eles me devolveram os papéis com as pesquisas impressas e eu fui embora.

Fiz um vídeo falando sobre esses pontos. A ideia era ensinar policiais por outras vias. Gravava vídeos sobre abordagem, prevenção, violência, etc. Vários policiais acompanhavam e eu me sentia satisfeito em lutar por um mundo melhor. O vídeo que fiz sobre o PROERD chegou até meus chefes. Eles criticaram o vídeo e disseram que se eu via problemas na unidade eu deveria tratar o problema apenas internamente, já que a polícia era uma “instituição TOTAL” (eu recomendo que você busque o significado deste termo). Eu os lembrei de que eu havia trazido o problema do PROERD. Eles então me convidaram a sair da unidade, e eu disse que faria o que fosse melhor para a segurança pública. Eles disseram que eu ficaria na unidade e que teria um canal direto com eles para apresentar propostas e demandas. Eu fiquei satisfeito. O vídeo havia causado algum efeito.

Diante da proposta de trazer todos os problemas da unidade ao comando da unidade, eu reuni meus policiais e pedi para que eles escrevessem os maiores problemas que eles encontravam na unidade e quais seriam as soluções que eles visualizavam. Compilei todos esses dados e somei as minhas análises e conclusões. Fiz um documento e enviei ao comando. Não tive nenhuma resposta. A única coisa que eu consegui foi criar uma situação muito estranha da unidade contra mim. Começando por algumas tentativas de punições absurdas, tais como: chegar atrasado em uma operação na qual eu não estava escalado; estacionar o veículo na vaga, porém da maneira errada. Nenhuma dessas prosperou, até que encontraram uma solução: transferência. Mandaram-me para outra cidade.

A cidade não era distante, mas ser transferido sabendo que isso está sendo feito para te prejudicar, mais as incontáveis vezes em que oficiais e praças da unidade vieram me consolar dizendo que a perseguição estava descarada e ridícula, deixou-me debilitado. Tudo isso reativou a minha depressão, que até aquele momento estava controlada. Eu não quis dar o braço a torcer. Minha mãe, percebendo que eu estava muito mal, marcou um psiquiatra. Eu fui e comecei a tomar medicamentos para me manter bem. Fui para meu novo local de trabalho e fiz o meu melhor, apesar da depressão. Comecei a ter muito sono, mas fiz de tudo para não demonstrar minha fraqueza e seguir com o meu trabalho, mesmo recebendo tantas porradas. O conceito de cristão e de família daquela unidade é muito estranho. A minha família apoia e o meu Jesus ama.

No novo local, ouvi os policiais para saber como otimizar o serviço. Defini instruções semanais, assim como fazia em Curitiba. Preparei um novo sistema e conscientizei os policiais sobre diversos temas necessários para o trabalho em escolas: respeito à dignidade da criança e adolescentes; pactos internacionais; prevenção ao uso de drogas; motivos que levam pessoas às drogas; prevenção da violência; inclusão da polícia militar como órgão de maior importância na rede de proteção; homossexualidade e transexualidade.

Tudo ia muito bem, apesar da perseguição. Apesar de oficiais irem até minha unidade para me informar que eles estavam sendo escalados para me fiscalizar. Foi lá que escrevi um texto sobre por que a ideologia do Bolsonaro seria uma péssima escolha para os policiais e para a segurança pública. Não demorou para que eu fosse novamente transferido. Isso acabou comigo. A minha depressão estava muito difícil de controlar e com essa troca de locais ficou impossível.

Eu pedi ajuda em vários setores da polícia e praticamente todos responderam que sabiam que eu estava sendo punido com uma transferência, mas que não podiam fazer nada, pois o sistema era assim mesmo. Eu não conseguia mais trabalhar e fui até a diretoria de pessoal pedir ajuda, a resposta foi praticamente a mesma. Meu psiquiatra fez um documento dizendo que essas transferências eram muito ruins para mim e, enquanto eu estava aguardando a resposta da polícia militar, foi aberto um procedimento contra mim por deserção. Recebi ajuda de muitas pessoas nesse período, mas eu não tinha forças para lutar. Advogados me orientaram diversas vezes e isso evitou que eu fosse preso como desertor.

Fui até meu local de trabalho, mas já estava impossível para mim. Eu não tinha mais vontade de ser policial, não tinha energia, nem força. Conheci bons oficiais neste novo local, mas eu estava doente demais para trabalhar como deveria. Graças aos policiais dessa unidade e da que eu estava antes eu não sai da polícia.

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A partir desse momento, qualquer pequeno incidente parecia algo grave demais para mim. Foi nesses dias que eu discuti com uma amiga que era muito importante para mim. Sem esperança de mudar algo no trabalho, sem esperanças de ser bom para quem era bom para mim, eu decidi tirar minha própria vida.

Sai de casa com essa intenção e avisei alguns amigos antes de desligar o telefone. Falei com o ilustrador de um livro meu e depois encontrei meu primo. Tentei sair de perto dele para poder realizar o que havia planejado, mas ele não deixou. Minha família me encontrou num momento onde eu só sentia dor. Eu vi meu pai voltar a respirar, praticamente, quando ele me encontrou com vida.

Fui para o hospital da polícia e de lá fui para um internamento que durou 40 dias. Se eu tinha alguma dúvida de que a minha luta estava certa, ela acabou dentro do hospital. Lá encontrei muitos policiais emocionalmente destruídos por terem sido o policial ideal. Alguns contavam dos batismos que, basicamente, são execuções que eles tiveram de realizar como forma de teste quando eram novos na polícia. Segundo eles, era necessário ir até uma favela e matar alguém para mostrar que eles seriam policiais de coragem. Outros policiais estavam com a família destruída. De tanto fazerem coisas de que se arrependem e voltarem para casa sem poder contar nada.

Eu sai da estatística de policial que comete suicídio, mas muitos se foram por causa desse sistema. E nós, policiais, somos todos culpados. Uns são culpados por fazer o mal ativamente. E outros são culpados pela omissão, por saberem que tudo isso acontece e não fazerem nada. Aí fica parecendo que eu sou um maluco.

Conheci um tenente do qual gostei muito. Achei ele bem parecido comigo. Ele era empolgado, inteligente, queria solucionar os problemas de segurança pública do local. Mas eu fiquei muito triste quando ouvi da boca dele que certos pelotões da polícia têm de trabalhar diferente, ou seja, tem de executar e torturar.

E a história segue. Bastam cinco minutos com um policial para ele contar sobre algum abuso de autoridade, sobre alguma execução que ele presenciou ou ouviu falar, sobre uma seção de tortura.

E todos acreditam estar fazendo o bem. Eu não duvido deles, pois eu também já acreditei. Somos treinados com o mantra BANDIDO BOM É BANDIDO MORTO, mas eu nunca vi um policial sair para executar um deputado bandido, um juiz que vende sentença, um senador que é chefe de tráfico. E eu não espero que saiam. O que eu quero demonstrar é que você, policial, está sendo enganado. Você está numa guerra ideológica para matar pobre. Não é bandido bom é bandido morto, mas sim, pobre bom é pobre morto. Você está sendo manipulado.

Fonte: justicando

 

 

Detenta que abandonou bebê no hospital acumula passagens pelo sistema prisional desde 2011

res2103Aline Alcântara acompanhava o filho na unidade, quando pediu aos agentes penitenciários que a escoltavam para ir ao banheiro e fugiu por uma báscula

O bebê de dois meses, filho da detenta Aline Barreto Alcântara, tem chorado bastante desde que foi abandonado por ela no Hospital das Clínicas, em Vitória, na madrugada desta segunda-feira (18). A informação é da Secretaria de Estado da Justiça (Sejus), que afirmou ainda que a fuga de Aline já foi comunicada às autoridades policiais.

O bebê foi internado no hospital há cerca de um mês, após apresentar problemas de saúde. A detenta acompanhava o filho na unidade, quando pediu aos agentes penitenciários que a escoltavam para ir ao banheiro e fugiu por uma báscula, deixando a criança para trás. 

Como a lei proíbe que detentas que acompanham bebês internados sejam algemadas, Aline estava sendo escoltada dia e noite por agentes da Sejus. Ela havia sido presa em abril do ano passado, por furto qualificado, e estava no Centro Prisional Feminino de Colatina, região noroeste do estado, onde o bebê nasceu.

A detenta acumula passagens pelo sistema prisional desde 2011, todas por furto qualificado. Em um dos processos, Aline foi condenada a sete anos e meio, em regime semiaberto, por furtar a arma de um policial militar e, em seguida, furtar objetos em outra residência. O crime foi cometido em 2012 e a condenação saiu em novembro do ano passado.

A Sejus pede que quem tiver informações sobre o paradeiro de Aline Barreto Alcântara que entre em contato como o Disque Denúncia, pelo número 181. Não é preciso se identificar e o anonimato é garantido.

Fonte: 

https://www.folhavitoria.com.br/policia/noticia/03/2019/detenta-que-abandonou-bebe-no-hospital-acumula-passagens-pelo-sistema-prisional-desde-2011

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