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Após surto de sarna, presos ameaçam fazer motim se carceragem não for esvaziada

c0702A carceragem da Delegacia de São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), vem sendo um grande problema não só para a Justiça, mas também para a própria Polícia Civil. Interditada desde 2015, o local, que nem poderia abrigar presos, agora precisou de uma ação imediata dos órgãos de saúde, nesta sexta-feira (2), por conta de um surto de sarna. Todos os 60 detentos que ocupavam o espaço para apenas oito estavam contaminados. Em vídeo, alguns deles reclamaram das condições na carceragem. 

A situação da carceragem nunca foi boa, mas o surto de sarna descoberto nos últimos dias levantou a preocupação até mesmo com a saúde dos próprios policiais que atuam na delegacia da RMC. “A carceragem em si é um problema muito antigo, pois desde quando foi determinada a remoção dos presos, simplesmente pelo fato de a delegacia ser uma bomba relógio, a ação da Justiça nunca foi cumprida da forma que deveria”, desabafou um servidor que tem contato direto com os presos e com a delegacia, mas que preferiu não ser identificado por medo de represálias.

Conforme a denúncia, feita pelos próprios presos aos servidores do Conselho da Comunidade, os detentos estariam numa situação crítica e a doença, causada por um parasita, já teria tomado conta até mesmo da estrutura da carceragem. “Estavam 60 num lugar que cabiam oito, com um espaço para ventilação que tem 15 centímetros e que não permite sequer que o local tenha condição de abrigar alguém. Como eles se revezam para dormir, um foi passando para o outro e a doença se proliferou de modo geral”.

Depois de muita insistência, os representantes do Conselho da Comunidade conseguiram a transferência de 12 presos e também uma visita da Vigilância Sanitária para tentar amenizar a situação dos que ficaram. “A equipe avaliou e achou melhor nem tentar só medicar os presos, porque o problema está na cela em si, encalacrado mesmo, então não tinha nem como tentar amenizar a situação. Qualquer outro preso saudável que entrar ali vai pegar sarna também”.

Problema continua

A carceragem foi lavada, mas há a necessidade urgente que os presos que estão no local sejam retirados. “Pois só assim, pelo menos, as equipes que sabem lidar com o assunto vão conseguir fazer a desinfecção. Lavar a cela foi uma solução paliativa, porque isso não dura menos de cinco horas em uma condição humana para se estar lá”.

Segundo o entrevistado pela Tribuna do Paraná, que também mantém contato com o Conselho da Comunidade, os próprios presos afirmam que a carceragem é impossível de se permanecer. “Eles mesmos falam que lá é o pior lugar que já ficaram. As pessoas até pensam ‘ah, mas se estão presos, cometeram crimes, merecem’, mas não é assim que as coisas funcionam. Eles já estão presos e cumprindo suas penas, mas não está em nenhuma decisão judicial a afirmação de que devem se contaminar por doenças”.

A necessidade, pelo menos para o momento, seria a remoção de todos os presos. “Retirando estes 40 presos que sobraram, a carceragem teria que ser bloqueada e não receber mais detentos. Até porque ela continua interditada”.

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública do Paraná (Sesp), disse que o problema já foi resolvido. Segundo a Sesp, “o Departamento Penitenciário do Paraná (Depen) retirou todos os detentos da Delegacia de São José dos Pinhais e transferiu para o sistema prisional”. Ainda de acordo com a Sesp, a ação foi tomada após a criação de uma força-tarefa, coordenada pelo juiz da execução penal da cidade, junto com o Conselho da Execução Penal do município, Vigilância Sanitária, Secretaria da Saúde e Guarda Municipal.

Conforme o entrevistado ligado à delegacia, a nota da Sesp é mentirosa. “Não foram transferidos todos os presos de forma alguma. Ainda existem 42 presos na carceragem, além deles, outras três mulheres. Foram transferidos 12, sem nenhum critério, para que não denunciássemos o que estava acontecendo, mas ainda existem presos lá sim”.

Imbróglio antigo

A Tribuna do Paraná vem noticiando o imbróglio relacionado à Delegacia de São José dos Pinhais desde sempre. Em 2014, por exemplo, a Vara Criminal da cidade determinou a interdição da carceragem. “As vistorias realizadas, em especial pela Vigilância Sanitária e pela Defensoria Pública, dão conta da completa falta de condições gerais da carceragem da 1ª DEPOL de São José dos Pinhais”, declarou o juiz Alexandre Waltrick Calderari em sua decisão, à época.

Um ano depois, outro juiz, Juan Daniel Pereira Sobreiro, também interditou a carceragem da delegacia da RMC pelo mesmo motivo. Na época, a Justiça inclusive determinou a remoção imediata dos presos, proibindo novos encarceramentos até uma nova vistoria da Vigilância Sanitária e da Justiça.

Conforme o mesmo servidor entrevistado pela Tribuna do Paraná, que tem contato direto com os presos e com a delegacia, a ação de 2015 continua valendo até hoje. “Já passa de R$ 800 mil de multa. A situação pode ser que agora em fevereiro tenha solução, já que tem uma audiência marcada para o dia 20. Talvez o Estado tenha alguma proposta para a delegacia, vamos aguardar”, finalizou.

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