Mães revelam omissão da Secretaria de Educação, da Polícia e também do Ministério Público, num sistema que desencoraja as famílias a seguirem e afeta ainda mais as vítimas
José Pires, Luís Lomba e Pedro Carrano, da Vigília Comunica
Este texto faz parte do Periferias Plurais, uma parceria entre o Plural, o Gasam e a Itaipu Binacional.
O Paraná está entre os estados que mais registraram casos de racismo e injúria racial nos anos de 2023 e 2024. Ao todo, foram 4.142 ocorrências, segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025. Em números absolutos, apenas Rio Grande do Sul e São Paulo tiveram mais registros.
No total, o Paraná contabilizou 1.606 crimes de racismo em 2023 e 1.879 em 2024, um aumento de 16% em relação a anos anteriores. Já a injúria racial contabilizou 348 ocorrências em 2023 e 309 em 2024. Nacionalmente, as taxas por 100 mil habitantes indicam crescimento de 26,3% nos casos de racismo e de 41,4% nos de injúria racial no Brasil.
Esses crimes estão tipificados na Lei nº 7.716/1989, conhecida como Lei do Racismo, que foi ampliada em 2023 para incorporar a injúria racial por meio do artigo 2º-A. Antes, esse crime estava no Código Penal (art. 140, §3º), que tratava também de ofensas motivadas por religião, origem, raça, além de ataques a idosos ou pessoas com deficiência.
O crime de racismo é cometido em diversos ambientes, principalmente no escolar. Uma pesquisa do Instituto de Referência Negra Peregum e do Projeto Sistema de Educação por uma Transformação Antirracista (SETA), lançada em junho de 2023 e denominada “Percepções sobre o racismo no Brasil”, coloca o ambiente escolar no topo da lista de locais em que os brasileiros mais afirmam ter sofrido a violência racial. De cada 10 pessoas, segundo a pesquisa, que relatam ter sofrido racismo no Brasil, 3,8 foram vítimas em escolas, faculdades ou universidades.
É nesse ambiente, um reflexo em miniatura da sociedade, onde as relações e dinâmicas internas reproduzem o que acontece fora dos seus muros, que o chamado “Racismo Institucional” se manifesta.
Essa é uma realidade enfrentada por muitos estudantes nas escolas do Paraná: uma soma de violências estruturais, repetidas, maltratadas e empurradas para debaixo do tapete por quem deveria proteger as crianças. É a prova viva de como o racismo opera todos os dias, inclusive – e talvez principalmente – dentro das instituições que deveriam garantir cuidado.
E quando as vítimas de racismo, já profundamente abaladas emocionalmente e, em alguns casos, até fisicamente, procuram ajuda na direção da escola, na Polícia ou no Ministério Público, e descobrem que o racismo estrutural também pode silenciar vozes dentro dessas instituições?
A sensação, muitas vezes, é de solidão, abandono e ausência de ferramentas que possam resolver tais crimes com eficiência. De acordo com levantamento divulgado em 2025 e publicado na Agência Brasil, mais da metade das pessoas pretas e pardas entrevistadas afirmam não saber como denunciar casos de racismo. Na mesma pesquisa, apenas cerca de 20,3% das pessoas acreditam que a denúncia teria encaminhamento para “os devidos fins legais”. O que significa uma percepção generalizada de descrença na efetividade das instituições.
“(Após um caso de racismo), vemos servidores se recusando a fazer o trabalho, o Ministério Público tirando o foco, numa espécie de sabotagem institucional. Muitas vezes, as pessoas negras no Sul do país sentem-se isoladas em local de trabalho ou em sala de aula. A dinâmica social da região fragiliza a gente”, aponta Watena Ferreira N’Tchalá, militante do movimento negro e assessor parlamentar do deputado estadual Renato Freitas (PT), que tem organizado uma rede de mulheres e mães que passam por situações de racismo institucional e na escola.
Na avaliação do deputado estadual Renato Freitas (PT-PR), a organização das mães para agir sobre esse cenário é fundamental. “É de extrema importância organizar as mães negras em torno da vida escolar, não somente pelo desempenho dos seus filhos, o que diz respeito às mães de modo geral, mas, sobretudo, no que diz respeito aos obstáculos que seus filhos enfrentam no processo de aprendizagem tendo o racismo como elemento central”, afirma.
Para ele, a construção do racismo no ambiente do ensino “faz com que os estudantes desenvolvam uma baixa autoestima, com que os estudantes infelizmente tenham uma compreensão distorcida de si mesmos e do seu potencial, faz com que os estudantes na tentativa de reagir às agressões sejam vistos como eles os agressivos e que, infelizmente, tenta conformar as nossas crianças negras aos esteriótipos historicamente estabelecidos e reservados ao nosso povo, desde cedo. Então, a organização das mães para libertar seus filhos de um ambiente racista, com tão pouca autocrítica, que é o sistema de ensino e as instituições escolares de modo geral”
Em série de quatro reportagens, produzidas em parceria entre Agência Vigília Comunica e o Plural, mães de adolescentes foram ouvidas. Elas lutam por justiça após suas filhas serem vítimas de racismo em escolas do Paraná. Essas famílias têm encontrado, ao longo do caminho, a leniência das direções escolares e a omissão de órgãos como a Polícia e o Ministério Público.
Na primeira reportagem da série, apresentamos as histórias de mães de Curitiba e da região metropolitana que enfrentam essa batalha diária. A segunda reportagem destaca a importância de espaços de acolhimento especializados — como o Creafro — onde profissionais negros, com experiência e vivência, oferecem suporte qualificado para lidar com o problema. Já a terceira parte aborda como a ausência de profissionais negros nas estruturas do Estado contribui para a perpetuação do racismo institucional. A série ainda traz a posição da Secretaria Estadual de Educação (Seed) sobre o tema. A quarta matéria é uma entrevista com a Doutora em Educação Megg Rayara Gomes de Oliveira.
Alexsandra Gabriella Gomes – Uma tentativa de “desumanização”

Os episódios de violência contra a estudante Alexsandra Gabriella começaram quando ainda era muito pequena, por volta dos nove anos de idade. Desde o ensino fundamental I, ela já enfrentava comentários discriminatórios, olhares tortos, risadinhas, piadas e palavras que minaram sua autoestima aos poucos, silenciosamente – como o racismo costuma fazer.
A primeira violência, registrada também na direção da escola, aconteceu quando tinha cerca de 10 anos. “Mesmo comprovado o crime, sempre tentaram me convencer de que ‘não valia a pena mexer com isso’, que ‘iria piorar pra ela’, que ‘era para eu deixar pra lá’.
Desde então, a adolescente, hoje com 14 anos, sofreu outros episódios de racismo. Não uma vez. Não duas. Mas quatro vezes – oficialmente conhecidas. Outras tantas foram silenciadas, engolidas, minimizadas, ignoradas, transformadas em “brincadeira sem maldade”, em “coisas de criança”, como se crianças negras não tivessem direito ao mesmo respeito que as brancas. Como se a dor delas fosse menor. Como se a humanidade delas fosse negociável.
Alexsandra é filha de Aline Gomes e vive com a mãe na cidade de Paranaguá, no litoral paranaense. A mãe relata que hoje a adolescente cursa o 6º ano em um colégio estadual e continua sendo vítima, reiteradamente, do crime de racismo.
E o preço de toda essa agressão voltou agora, anos depois do início das violências. “Minha filha hoje me pede para alisar o próprio cabelo para ‘sofrer menos’. Você consegue imaginar o que é ouvir isso da própria filha? Ouvir que ela quer apagar seu pertencimento para ser aceita? Ouvir que ela entendeu que o corpo dela é visto como alvo? Ouvir que ela acredita que se parecer menos com quem ela é, ela vai apanhar menos do mundo? Isso é racismo, é violência psicológica, é genocídio simbólico”, ressalta a Aline.
Ela reforça que a escola, que deveria ser o espaço de segurança, aprendizagem e convivência saudável – especialmente para uma criança negra, e ainda mais para uma criança negra dentro do espectro autista – tornou-se um ambiente carregado de dor.
A última agressão, ocorrida em 13 de junho de 2023, aconteceu dentro da instituição de ensino, entre as paredes onde ela passa boa parte da vida. “Minha filha foi chamada de ‘macaca’ por outra aluna, do 7º ano do Colégio Estadual Porto Seguro. Além de gravíssimo, o xingamento é um dos marcos históricos mais violentos da prática racista no Brasil. É uma expressão de desumanização total – porque compara um ser humano negro a um animal. Isso não é piada, não é brincadeira, não é mal-entendido. É crime!”, diz a mãe.
Aline conta que tentou, muitas vezes, uma responsabilização dos agressores. Mas sempre a barravam no caminho. “Não compensa, vai piorar para ela, são apenas crianças”. Esses eram os argumentos das direções das escolas onde a filha estudou.
“Desta vez, em 2023, eu tentei registrar um BO online, pela Lei Maria da Penha, porque era o único caminho que eu conhecia e consegui naquele momento. Mas meu pedido não foi efetivado. Depois disso, fui orientada por duas pedagogas a registrar o BO. Mas outra pedagoga me disse para ‘deixar pra lá’”, lembra.
Revela também que todas as vezes que tentou acessar as atas das agressões anteriores, foi informada de que só poderia ter acesso aos documentos se movesse um processo para tal. Ela diz que “o sistema escolar cria barreiras para que mães negras não denunciem. Isso também é racismo institucional. Mas eu não vou mais aceitar isso”, enfatiza.
Quando Aline compareceu na escola, em junho de 2023, para relatar a violência, encontrou três posturas diferentes. Uma pedagoga lhe disse para ignorar a violência, que “era coisa de criança”. E completou com uma frase extremamente problemática: “Pode acontecer isso com você também! Ninguém é livre de sofrer esse tipo de coisa.”
Outras duas pedagogas, conta a mãe, foram éticas e recomendaram que ela registrasse um boletim de ocorrência sobre o crime que a filha tinha sofrido. Já a direção da escola recusou a entrada na unidade do Núcleo de Direitos Humanos Marielle Franco, uma iniciativa do Instituto Federal do Paraná (IFPR), especialmente no Campus Paranaguá, criada para orientar pessoas em situação de violação de direitos, oferecer apoio jurídico, realizar cursos de extensão e atuar na defesa dos direitos humanos na região do litoral, focando em populações vulneráveis, empoderamento feminino e direito à cidade, sendo uma referência na área.
Agora, Aline promete não parar enquanto não conseguir justiça contra os crimes de racismo dos quais sua filha foi vítima. Ela lembra que ainda não conseguiu registrar Boletim de Ocorrência, mas que não vai parar até conseguir.
O que é? Racismo Institucional
Racismo institucional é o conjunto de práticas, normas, rotinas e comportamentos de instituições (como Estado, escolas, empresas, sistema de justiça, saúde, polícia, mercado de trabalho) que produzem desvantagens sistemáticas para pessoas negras e favorecem pessoas brancas, mesmo que isso não seja feito de forma explícita.
Nas escolas, o impacto do racismo na educação deixa marcas profundas. Recentemente, a deputada federal Carol Dartora (PT-PR), primeira mulher negra eleita no Paraná para a Câmara dos Deputados, relatou sua experiência com o racismo nas escolas e como isso marcou sua trajetória acadêmica e profissional. “Eu sofri racismo de professores, e isso me afastou da escola por um tempo. O racismo nega o direito à educação”, declarou.
