Uma discussão durante a sessão da Câmara Municipal de Curitiba (CMC), nesta quarta-feira (5), terminou com uma acusação de xenofobia entre parlamentares. Durante o debate da Ordem do Dia, a vereadora Tathiana Guzella (PL) questionou a origem da vereadora Vanda de Assis (PT) e sugeriu que ela voltasse ao Ceará caso elogiasse a atuação do Partido dos Trabalhadores. A fala foi imediatamente contestada por Vanda, que classificou a manifestação como xenofóbica e afirmou que tomará medidas judiciais. Veja o vídeo abaixo.

O episódio aconteceu enquanto os vereadores discutiam projetos que seriam apreciados pelo plenário, entre eles a proposta de criação do Cadastro Único para Pessoas em Situação de Rua de Curitiba.
A proposta prevê a criação de um cadastro voluntário para identificar, quantificar e organizar informações sobre essa população, permitindo o acompanhamento individualizado e o encaminhamento para serviços públicos nas áreas de assistência social, saúde, educação, habitação, qualificação profissional e acesso à documentação civil.
O texto também estabelece que a coleta de dados sensíveis, como informações relacionadas à saúde, dependência química e transtornos mentais, dependerá do consentimento livre, específico e informado da pessoa cadastrada, em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Além disso, determina que os cidadãos sejam orientados sobre a finalidade da coleta de dados, seus direitos e a política de proteção das informações antes do cadastramento.
Fala que gerou denúncia de xenofobia contra vereadora ocorreu durante aparte
Ao conceder um aparte durante o debate, Vanda de Assis autorizou a intervenção da colega Tathiana.
“Bom, queria trazer esses elementos aqui, vou olhar se alguém pediu a parte, se pediu eu quero contemplar os apartes. O João Bettega já falou, por o tempo dele, eu, tendo direito, passo para a delegada Tatiana. Pode falar, vereadora Tatiana”comentou a vereadora Vanda de Assis.
Na sequência, Tathiana Guzella fez referência à cidade natal da parlamentar petista.
“Obrigado, vereadora Wanda, pelo aparte. Vereadora, a senhora é de Campos Salles, Ceará? Eu sou de Campos Sales, Ceará. Se a senhora gosta tanto de elogiar o PT, a atuação do PT, dos partidos correlatos ao PT, por que a senhora não volta para o Ceará? Por que a senhora veio para cá?”disse a vereadora Tathiana Guzella.
Antes do término do tempo destinado ao aparte, por conta da situação, Vanda interrompeu a fala da colega.
“Acabou o direito de sua fala”respondeu a vereadora Vanda de Assis.
Mesmo assim, Tathiana continuou a manifestação.
“A senhora nasceu lá, a senhora nasceu lá, mas vem encher o saco aqui”continuou a vereadora Tathiana.
Vanda reagiu imediatamente.
“Isso é xenofobia. Isso é xenofobia, vereadora”afirmou a vereadora Vanda.
Vereadora Vanda afirma que vai adotar medidas judiciais
Após a sessão, Vanda de Assis divulgou uma nota na qual afirmou ter sido vítima de xenofobia dentro da Câmara Municipal e informou que pretende recorrer às medidas cabíveis.
“Hoje eu vim trabalhar e tive a infelicidade de ser vítima de xenofobia durante uma sessão da Câmara Municipal de Curitiba. A autora da discriminação foi a vereadora Tathiana Guzella, do Partido Liberal.”
Na manifestação, a vereadora afirmou que não considera o episódio apenas uma divergência política.
“Não vou naturalizar esse episódio, nem tratar como uma divergência política. Xenofobia é crime. Sou nordestina com muito orgulho. Minha história, minha origem e a de milhões de brasileiras e brasileiros não serão motivo de constrangimento ou discriminação.”
Vanda também destacou que o fato de o episódio ter ocorrido durante uma sessão pública agrava a situação.
“O que mais me indigna é pensar que isso aconteceu dentro da Câmara Municipal, a casa do povo, em uma sessão pública transmitida ao vivo. Se uma parlamentar se sente à vontade para praticar xenofobia nesse espaço institucional, imagine o que vivem diariamente tantas pessoas migrantes que enfrentam o preconceito longe das câmeras e sem a visibilidade de um mandato.”
Ao final da nota, ela afirmou que buscará responsabilização.
“Vamos tomar todas as medidas judiciais cabíveis, dentro e fora da Câmara. Não toleraremos a xenofobia. Nenhuma pessoa deve ser discriminada por sua origem”.
O que disse Tathiana Guzella?
Procurada, a equipe de Tathiana Guzella informou, por meio de nota enviada no final da tarde, que a vereadora “repudia qualquer tentativa de atribuir à sua manifestação caráter xenofóbico”.
Segundo a parlamentar, sua fala foi interrompida na sessão antes que o raciocínio pudesse ser concluído. De acordo com ela, a intenção era fazer uma manifestação “estritamente política”, sem “atribuir qualquer juízo de valor às pessoas em razão de sua origem geográfica”.
“A crítica dirigia-se exclusivamente às opções administrativas e às políticas públicas implementadas por governos de esquerda, tema inerente ao debate parlamentar e protegido pela liberdade de manifestação política, não havendo qualquer conteúdo discriminatório contra o povo cearense, a população nordestina ou qualquer cidadão em razão de seu local de nascimento”diz o texto enviado à Banda B
Tathiana Guzella informou ainda que registrou um Boletim de Ocorrência contra a vereadora Vanda de Assis pela prática de crime contra a honra.
