Diálogos recentes entre o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto e os policiais que atenderam à ocorrência da morte da cabo Gisele Alves Santana, de 32 anos, trazem à tona tentativas de obstrução da cena do crime. A vítima foi encontrada com um tiro na cabeça no apartamento do casal, no bairro do Brás, região central de São Paulo.
As conversas foram divulgadas na quarta-feira (18) após a prisão do oficial por feminicídio e fraude processual. Elas demonstram como o tenente-coronel insistiu em impor sua hierarquia e entrar no imóvel, mesmo diante de orientações contrárias de policiais de menor patente e de um desembargador presente no local.
Logo depois que Gisele foi retirada do apartamento em estado gravíssimo, o oficial tentou entrar no local repleto de evidências a serem periciadas. Policiais de patente inferior o conteram, mas ele desconsiderou as orientações e avançou. Nem a recomendação do desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, amigo do coronel, foi suficiente para mantê-lo afastado.
Já dentro do imóvel, o comportamento de Geraldo Neto intensificou o estranhamento dos militares. No registro do inquérito, o cabo (CB) questiona: “O senhor não saiu do banho agora? O senhor falou que estava tomando banho.” O tenente-coronel responde: “Irmão, eu entrei no banho (liguei o chuveiro) eu tava aqui tomando banho, daí eu escutei o barulho e eu abri a porta… fazia um minuto que eu tava embaixo do chuveiro, irmão.” Diante da sugestão de apenas vestir uma camiseta e um short para agilizar, ele insiste: “Não, eu não vou, eu não tô bem para ir assim, eu vou tomar um banho.”
O cabo então comenta expressamente seu temor de perda de provas: “O cara vai lavar a mão.” Em outro trecho, ele questiona se será feito o exame residuográfico. O tenente pondera: “Depende do que o perito falar, eu não vi nada.” E o cabo retruca: “Se tomar banho vai perder todos os baguio [vestígios] da mão, e as conversas dele tão estranhas… porque se fosse um paisano a gente já arrastava pra perto…”
Esse trecho ilustra a preocupação técnica com a eventual destruição de vestígios de pólvora e o desconforto institucional diante do tratamento diferenciado conferido a um oficial de alta patente. A investigação também aponta que as sucessivas ligações telefônicas feitas pelo coronel antes de acionar o socorro podem indicar tentativa de alinhar uma versão dos fatos, segundo o Ministério Público de São Paulo (MPSP).
Apesar das advertências, o tenente-coronel permaneceu no apartamento, cercado por policiais que tentavam limitar sua circulação. Esse episódio foi considerado um dos principais elementos para apurar possível interferência na cena do crime.
Relembre: Gisele Alves Santana foi encontrada gravemente ferida em 18 de fevereiro, no apartamento onde morava com o marido, no Brás. Socorrida, não resistiu. O caso, inicialmente tratado como suicídio, mudou de rumo após exumação do corpo e novos laudos periciais que apontaram inconsistências. Com base nas investigações, o tenente-coronel foi indiciado por feminicídio e fraude processual; a prisão foi autorizada pela Justiça a pedido da Polícia Civil, com aval do Ministério Público. Perícias concluíram que a trajetória do disparo e a presença de sangue em diferentes cômodos não condizem com um ato voluntário. O inquérito segue em andamento, com novos exames ainda previstos.
