Caso Rodrigo Boschen: Muffato ignorou alertas para contratar vigilante, diz gestor de empresa terceirizada

Denúncia

Grupo Muffato foi orientado a contratar vigilantes para o supermercado do bairro Portão, em Curitiba, que teve funcionários envolvidos na morte de Rodrigo Boschen, de 22 anos, em junho de 2025. A empresa, no entanto, optou por contratar controladores de acesso, profissionais com custo menor e sem treinamento para atuar em situações de furto, segundo os depoimentos do gestor da empresa terceirizada Força Rota, Thiago Milescki, à Polícia Civil e à Justiça.

Controlador de acesso, ou vigia, era o cargo de Bryan Gustavo Teixeira, funcionário contratado por meio da Força Rota que estava no Muffato na noite do crime. Ele é um dos quatros réus no processo sobre a morte de Rodrigo, que foi perseguido na rua sob suspeita de furtar uma barra de chocolate. Também são réus dois funcionários do Muffato, Antônio César Bonfim Barros e Luiz Roberto Costa Barbosa; e Henrique Moreira Alves do Carmo, motoboy que teria participado das agressões a Boschen.

O Grupo Muffato afirmou que não teve acesso aos depoimentos, pois não é parte do processo, e que sempre instruiu e orientou o uso de máxima cautela a seus funcionários e terceirizados, com ações não violentas e restritas aos limites das suas unidades (leia abaixo a nota da empresa).

Controle de acesso

Thiago Milescki afirmou duas vezes que o Muffato não seguiu a orientação para contratar profissionais especializados em segurança, a primeira delas em depoimento à Polícia Civil, dias após a morte; depois, na primeira audiência de instrução do processo, no último dia 11 de maio.

No depoimento à Polícia Civil, Milescki disse que Bryan Teixeira foi contratado pelo supermercado como vigia, profissional responsável “por monitorar áreas, mas não conter situações, tal qual o furto ocorrido no mercado Muffato”. Bryan estava há apenas duas semanas na função.

Segundo Milescki, a Força Rota prestava serviços há quatro anos na unidade do Portão e ele havia alertado o Muffato sobre a necessidade de contratar vigilantes profissionais. “A demanda do mercado exigiria a contratação de seguranças e (Milescki) chegou a alertar o mercado contratante, o qual se recusou e manteve a contratação de vigias, cargo para o qual Bryan foi contratado”, diz o Termo de Depoimento à 3ª Delegacia de Homicídios de Curitiba. 

O gestor da Força Rota disse que as ordens a Bryan eram dadas por profissionais do Muffato. “O depoente relata que tinha conhecimento de que a equipe do mercado Muffato tinha o hábito de atuar como segurança”, afirma o Termo de Depoimento, “e que é possível que estes comandos tenham sido repassados aos funcionários da empresa Rota”.

Na audiência de instrução do processo, Thiago Milescki afirmou que as funções de Bryan eram avisar a equipe do supermercado sobre a entrada de “suspeitos” e dar informações a clientes. “O vigia, no caso dele, é para controlar o acesso, tirar dúvidas, anotar documentos. É mais para controlar o acesso, nada envolvendo segurança”, afirmou Milescki.

Ele voltou a afirmar que havia alertado o Muffato. “Na verdade, é o enquadramento da questão do serviço. Como lá era um lugar onde sempre acontecia esse tipo de coisa de furtos, eu falava ‘a gente precisa de um segurança aí, não de um controlador de acesso’. Eu já passei isso várias vezes para eles, para evitar esse tipo de coisa”. Segundo Mileski, não houve nenhuma providência.

Treinamento não é o mesmo

Segundo Milescki, o treinamento dado a controladores de acesso não é mesmo dos vigilantes. “Quando a pessoa entra na área de controle de acesso, como é uma área de serviços, não precisa ter um preparo igual ao de um vigilante, que tem que ter um curso de reciclagem em dia”. Ele revelou que Bryan não era funcionário da Força Rota, mas de uma empresa chamada FGV, que faria parte do mesmo grupo.

Também em depoimento à Justiça na condição de testemunha, Airton Camargo, agente de prevenção de perdas do Muffato, disse que havia uma pressão velada para a redução no número de furtos. Outro agente de prevenção, que trabalhava durante o dia, teria mandado mensagens cobrando uma solução para os furtos registrados no turno da noite.

Camargo estava no supermercado por volta das 21h de 19 de junho de 2025, quando Rodrigo Boschen foi morto. De acordo com ele, o Muffato não permite que funcionários ou terceirizados atuem fora do supermercado e os três réus ligados à empresa agiram por contra própria (ele disse não conhecer o motoboy Henrique do Carmo). “De forma nenhuma. Nem vigilante, ninguém pode fazer isso (perseguir pessoas na rua). Eu não sei por que tomaram essa medida. Se o vigilante, que é o segurança, não pode fazer isso, imagine o controlador de acesso”.

Situação de risco

Para o advogado Leonardo Mestre Negri, assistente da acusação, os depoimentos evidenciam que a morte de Rodrigo Boschen não pode ser tratada como um caso isolado.

“Os depoimentos colhidos em juízo revelaram que o Muffato tinha plena ciência do despreparo e da ausência de qualificação dos profissionais responsáveis pela proteção patrimonial da unidade, tendo sido previamente alertado sobre os riscos daquela atuação”, disse o advogado. “Ainda assim, optou por manter um modelo operacional mais barato, mesmo diante da incapacidade técnica das equipes encarregadas de lidar com abordagens e situações de conflito”.

A cobrança interna pode ter aumentado o grau de violência na abordagem de Rodrigo, avalia Leonardo Negri. “Poucos dias antes da morte, a equipe de prevenção e perdas do turno da noite havia sido pressionada internamente em razão dos altos índices de furtos, contexto que ajuda a compreender a escalada de violência empregada na abordagem fatal. A família (de Rodrigo) entende que o caso expõe uma política de segurança baseada em pressão, improviso e tolerância ao despreparo, colocando a proteção patrimonial acima da integridade física e da vida humana”.

O que diz o Muffato

Em nota, o Grupo Muffato disse desconhecer os depoimentos e afirmou que instrui funcionários e terceirizados sobre o uso de máxima cautela, com ações de contenção não violenta e restrita aos limites das unidades:

O Grupo Muffato não teve acesso aos depoimentos realizados, visto que não é parte na ação.

Contudo, o Grupo Muffato reitera que em seus protocolos de segurança sempre instruiu e orientou, de forma expressa e continua, o uso de máxima cautela aos seus funcionários e terceirizados, com ações permeadas pela contenção não violenta e restrita aos limites das suas unidades.

O Grupo Muffato segue colaborando com as autoridades.

Dois suspeitos estão presos

Bryan Gustavo Teixeira, Antônio César Bonfim Barros, Luiz Roberto Costa Barbosa e Henrique Moreira Alves do Carmo foram denunciados pelo Ministério Público do Paraná (MPPR) em julho do ano passado, pelos crimes de homicídio qualificado com motivo torpe, motivo fútil, uso de meio cruel e recurso que dificultou a defesa da vítima. Bryan Teixeira e Luiz Roberto Barbosa estão presos.

A primeira audiência de instrução do processo foi no dia 11 de maio, na 2ª Vara Sumariante do Tribunal do Júri de Curitiba. A próxima audiência será no dia 10 de junho, às 13h30. Na fase de instrução, será definido se os réus serão submetidos a Júri Popular.

Imagens que circularam na internet na época do crime mostraram Rodrigo Boschen correndo dentro do supermercado. Segundo as investigações, o jovem foi perseguido na rua e morreu em decorrência de um golpe conhecido como mata-leão. O espaço fica aberto dos defensores dos réus, caso queiram se manifestar.

Fonte: https://www.plural.jor.br/curitiba/caso-rodrigo-boschen-muffato-ignorou-alertas-para-contratar-vigilante-diz-gestor-de-empresa-terceirizada/

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