PF fecha o cerco à família de Vorcaro e endurece negociação de delação premiada
Prisão do pai do banqueiro torna mais difícil o cenário das tratativas.
BRASÍLIA E SÃO PAULO – Contratado pelo banqueiro Daniel Vorcaro para acompanhar a construção do barco “Solar I”, trazê-lo ao Brasil, treinar a tripulação e comandar a embarcação, o capitão Luis Felipe Woyceichoski afirmou à Polícia Federal ter sido ameaçado de morte, em 2024, por sete homens, supostamente a mando do dono do Banco Master. Segundo o depoimento, as ameaças ocorreram porque ele “mantinha filmagens do barco, bem como registros de imagem e anotações em diário de bordo relativos a situações que, segundo sua percepção, colocavam em risco a integridade da embarcação e de passageiros”.
O relato de Luis Felipe aos investigadores da Operação Compliance Zero sugere, segundo a PF, que as tensões entre ele e o dono do Banco Master “diziam respeito a conteúdo potencialmente sensível relacionado à própria rotina da embarcação”.
Em conversa com o Estadão, Luis Felipe informou que não exerce mais a função de comandante de embarcações e não quis se manifestar sobre o conteúdo de seu relato à Polícia Federal. “Não quero falar”, esquivou-se.

A PF descreve o “Solar I” como um local de armazenamento de “documentos físicos, anotações, registros náuticos, arquivos digitais, mídias, equipamentos eletrônicos ou outros elementos probatórios relacionados aos fatos sob apuração”.
Para a Federal, “se as ameaças teriam decorrido, em tese, da existência de registros produzidos no contexto do barco, é plausível concluir que a própria embarcação constitua possível repositório de documentos, mídias, anotações, arquivos eletrônicos e demais elementos úteis à apuração”.
Nesta quinta-feira, 14, a corporação foi às ruas para cumprir a sexta fase da Operação Compliance Zero, que mira integrantes da “Turma” de Daniel Vorcaro – grupo encarregado de ameaçar, intimidar e invadir dados sigilosos de desafetos do dono do Banco Master.
‘Vamos ter que sentar com ele’
A investigação da Polícia Federal registra que, em 28 de maio de 2024, Daniel Vorcaro encaminhou a Luiz Phillipi Mourão, o Sicário, os dados de Luis Felipe Woyceichoski, identificado na mensagem como “capitão meu barco”. Segundo o relatório, o banqueiro escreveu: “vamos ter que sentar com ele”.
Na mesma sequência de mensagens, Vorcaro também enviou os dados de Leandro Garcia, então chefe de cozinha do barco, e determinou que fosse levantado “tudo dos dois”, incluindo informações sobre familiares. “Esse encadeamento evidencia, em tese, que a movimentação intimidatória não nasceu de iniciativa autônoma de terceiros, mas de demanda originada no círculo decisório de Daniel Vorcaro”, afirma o relatório que embasou a sexta fase da investigação.
O capitão do barco relatou à PF que cerca de sete homens foram até a marina à sua procura, abordaram tripulantes da embarcação e também procuraram Leandro Garcia, afirmando agir “a mando do Senhor Daniel”. Segundo o depoimento, o grupo esteve na Marina Bracuhy, depois foi ao Hotel Nacional Innm, em Angra dos Reis, e ameaçou Leandro. Um dos homens teria, inclusive, se apresentado como policial federal.
A investigação também cita o relato de Tatiana Dantas Carta, que afirmou ter sido abordada por homens ao deixar a marina. Segundo ela, os suspeitos perguntaram se trabalhava na Solar I e procuravam o capitão Luis Felipe, em uma postura descrita como “incisiva e intimidatória”.
‘O tiro saiu pela culatra’
“O acervo não se limita, porém, à notícia de que terceiros teriam praticado as ameaças”, anota a investigação.
De acordo com os federais, após as ameaças, o banqueiro recebeu um áudio de Sicário informando que a “demanda do Rio de Janeiro” estaria “resolvida” e que os executores permaneciam “em QAP” (na escuta).
Em outra conversa, o banqueiro perguntou se “Angra” estava “100% resolvido” e se a ação havia alcançado “os dois caras”.
Em 11 de julho de 2024, ao receber de Sicário um áudio em que Luis Felipe relatava as ameaças sofridas, Daniel Vorcaro teria reagido dizendo que “o tiro saiu pela culatra”, que “esse cara era o principal” e que “tinha que ter encontrado com ele”. Sicário respondeu: “É tudo comigo. Pode deixar.”
Posição de comando
O documento da Polícia Federal atesta que o banqueiro “utilizou sua posição de comando para desencadear providências de constrangimento e intimidação contra pessoas funcionalmente vinculadas à embarcação ‘Solar I’, após notícia de gravação e em contexto de possível existência de registros sensíveis produzidos a bordo”.
“A partir dos elementos já colhidos, sua conduta se revela, em tese, pela identificação do capitão como alvo prioritário, pela determinação de levantamento aprofundado de dados pessoais e familiares, pela conexão entre o episódio intimidatório e os registros mantidos sobre a embarcação, e pela posterior manifestação de acompanhamento crítico do resultado da ação executada”, diz o relatório.
