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Ex-membro do PCC, Lúcifer já passou por presídio de Campo Grande e confessou ter matado 48 presos

Em 2017 ele seria contratado para matar o líder da Família do Norte quando ambos estavam na Máxima

 Marcos Paulo da Silva, conhecido como Lúcifer, foi preso em 1995 por furto e roubo. A pena que chegaria a no máximo 4 anos de prisão perdura por 25 anos. Considerado um dos mais perigosos do país, todos os 48 assassinatos cometidos por ele foram no interior das celas por onde passou. Durante sua passagem pelo Presídio de Segurança  de Campo Grande, a precisão com que assassinava seus rivais chegou a ser “comprada” pelo maior rival de Lúcifer, a facção criminosa  (Primeiro Comando da Capital), para executar o chefe e fundador da FDN (Família do Norte), também preso na Capital. Sua pena ultrapassa 217 anos.

A Operação Echelon, do MP-SP (Ministério Público de São Paulo), que cumpriu mandados em 2018 na Capital, prendeu 75 pessoas pelo crime de organização criminosa. Além disso, um bilhete foi interceptado na cela onde Lúcifer segue preso, na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, em São Paulo.

O bilhete revelou que, em 2017, quando Lúcifer estava no Presídio de Segurança  de Campo Grande, havia a intenção de usá-lo para assassinar José Roberto Fernandes Barbosa, conhecido como Zé Barbosa da Compensa, chefe e fundador da FDN (Família do Norte). O mandante do assassinato era o , facção a qual Lúcifer entrou no seu segundo ano de prisão, ainda em São Paulo, aos 19 anos, e saiu treze anos depois para fundar sua própria organização criminosa, a Cerol Fininho. Entretanto, Compensa foi transferido de cela logo após o bilhete ter sido interceptado pelas autoridades.

A Cerol Fininho

A Irmandade de Resgate do Bonde Cerol Fininho foi fundada em 2008 por Lúcifer. O nome faz referência às linhas de pipa, que têm vidro em sua composição, altamente cortantes. Em depoimento à Justiça, ele afirmou que havia matado 48 presos. Segundo Lúcifer, o  “se desvirtuou e passou a visar apenas o lucro e o capitalismo, ao invés de proteger presos”.

“Fui usado pelo  para exterminar presos. Mas não me arrependo de matar aquelas pessoas porque a luta era justa. Havia muitos estupradores e ladrões que roubavam presos dentro da cadeia”, disse Lúcifer em depoimento.

Logo após a fundação, redigiu à mão o estatuto do Cerol Fininho, que tem como lema “lealdade, justiça, guerra e morte”. Além disso, existe a ordem de que os inimigos, ao serem assassinados, devem ter as cabeças decepadas e as vísceras arrancadas. Outro “ritual” é escrever o nome da facção com sangue das vítimas nas celas onde os assassinatos são feitos.

A cada nova onda de assassinatos, Lúcifer era transferido para uma penitenciária federal diferente. Além de Campo Grande, já passou por Porto Velho e Catanduvas. Nessa última, psicólogos atestaram que ele precisa receber tratamento para transtorno de personalidade e psicose, “devido a sua alta periculosidade”.

De presídio em presídio

Durante os seis primeiros anos preso, Lúcifer esteve preso na Penitenciária de Serra Azul, em São Paulo. Já na Penitenciária de Presidente Venceslau – SP, assassinou cinco presos em 2011 e ordenou a morte de mais um em 2015. Neste ano, passou por Porto Velho, Campo Grande e Catanduvas. Em janeiro de 2018 retornou à São Paulo e, em novembro, novamente à Catanduvas.

Conforme a SAP (Secretaria Estadual da Administração Penitenciária), Lúcifer é condenado a 217 anos e três meses de prisão. Apesar de ter confessado matar 48 presos, ele responde apenas pelos homicídios de seis, e de ser o mandante de outros dois.

 Fonte: midiamax.com.br

Viagra vira moeda de troca em presídios brasileiros

Comprimidos do medicamento e de seus concorrentes entram de forma clandestina nas penitenciárias e passam a ser usados como dinheiro entre os presos

 Como não há circulação de dinheiro, a compra de produtos na cadeia (de pasta de dentes a uma porção de maconha) ou o pagamento de serviços, de visitas íntimas fora das regras à morte de um desafeto, são feitos pelo antigo método do escambo. O valor da mercadoria usada nessas negociações varia conforme a procura. “É igual a bolsa de valores”, compara Fábio Jabá, presidente do Sifuspesp, o sindicato dos funcionários do sistema prisional de São Paulo. “Quanto mais desejado o artigo, maior a cotação.” Nos últimos tempos, um novo produto começou a disputar com os pacotes de cigarros a primazia de ser a principal moeda de troca nas penitenciárias: as pílulas de Viagra. E a cotação do medicamento para disfunção erétil está em alta no mercado carcerário brasileiro.

No ano passado, houve 453 ocorrências relacionadas à tentativa de contrabandear essa droga para dentro dos presídios de São Paulo, o estado que concentra a maior população carcerária do país. Algumas ações abortadas envolviam cargas com mais de 140 comprimidos. Casos desse tipo continuam a ser registrados nos últimos meses. Em 9 de junho, por exemplo, na Penitenciária de Presidente Venceslau, no interior paulista, famosa por abrigar lideranças do Primeiro Comando da Capital (PCC), uma mulher tentou entrar com uma caixa de vistosos caquis. O alimento passou pelo aparelho de scanner, que acusou a existência de 993 pílulas azuis enroladas em camisinhas escondidas dentro das frutas. O problema não é só em São Paulo. No mesmo dia, a 1 100 quilômetros de Presidente Prudente, uma mãe com um bebê no colo foi à Penitenciária Central do Estado em Cuiabá (MT), conhecido reduto do Comando Vermelho (CV), com a intenção de visitar o marido. Depois de os visitantes passarem pelo scanner, os agentes estranharam os espaços vazios na sola dos tênis da criança. Não tiveram dúvida. Ao abrirem o calçado, de­pararam com 128 comprimidos contra disfunção erétil.

Assim como o cigarro, o “azulzinho” é considerado “artigo indispensável” pelos presos. Além de muitos terem problemas de impotência por causa do vício em drogas, sentem-se por vezes desconfortáveis em se relacionar com a parceira nas “jegas” (camas de concreto) com “quieto” (cortinas), conforme o linguajar da cadeia. Mas essa não é a única utilidade do Viagra. Os detentos também costumam usá-lo para potencializar o efeito de drogas e remédios. “O sildenafil, o principal composto do medicamento, é um vasodilatador, que aumenta a circulação sanguínea. Combinado com outros remédios, pode provocar um efeito alucinógeno”, explica o médico toxicologista Anthony Wong.

O Viagra pode ainda ter finalidades mais cruéis. Para assassinarem desafetos sem deixar rastros muito visíveis, as facções criminosas obrigam seus inimigos a beber o chamado “gatorade”, um coquetel feito com a mistura das pílulas azuis, cocaína e água. Ele provoca uma overdose quase instantânea. “Nós pegamos um caso desse tipo no início deste ano. Não havia nenhum vestígio aparente no corpo. Só encontramos no interior da boca restos de cocaína. Provavelmente, foi uma morte causada pelo coquetel”, afirma o perito Emerson Lopes dos Reis, diretor do Instituto Geral de Perícias de Mato Grosso do Sul.

CARGA ILEGAL - Medicamentos encontrados no Rio: contrabando do Paraguai POLICIA FEDERAL/Divulgação

Em sua esmagadora maioria, as pílulas que chegam aos presídios são trazidas ilegalmente do Paraguai. No país, laboratórios clandestinos produzem cópias do Viagra e de seus principais concorrentes: Pramil, Cialis e Erectalis. O tamanho do mercado negro pode ser dimensionado de forma indireta. Segundo levantamento do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (Idesf), o Paraguai importou da China, de 2013 a 2015, cerca de 10 toneladas de sildenafil. “Daria para fabricar quase 200 milhões de comprimidos. É a população brasileira inteira”, diz Luciano Barros, diretor do Idesf.

Não por acaso, tornaram-se relativamente comuns as apreensões de caminhões que trazem esse tipo de carga do país vizinho. Segundo a Receita Federal, somente em Foz do Iguaçu, cidade paranaense próxima à fronteira, foram flagrados 4,5 milhões em medicamentos em 2017. Ao lado de emagrecedores, anabolizantes e abortivos, as pílulas para disfunção erétil estão entre as campeãs de apreen­são. O contrabando é controlado por facções que usam as mesmas rotas para trazer drogas e armas ao país.

De forma legal, o Viagra e seus concorrentes só podem chegar às penitenciárias com prescrição médica. “Sem a receita, não entra nem analgésico”, comenta o representante do grupo paulista de agentes de escolta e vigilância penitenciária, Antônio Ramos. Alguns presos alegam que precisam da pílula azul para aliviar a abstinência de drogas. Essa desculpa quase nunca cola. O jeito é tentar driblar as regras. Os parentes flagrados com os medicamentos podem ficar impedidos por até dois anos de fazer visitas, e os detentos que seriam visitados podem receber faltas graves, que impossibilitam posteriormente a progressão de pena. As tentativas de burlar os sistemas de controle são as mais diversas possíveis. Como passam mais despercebidos pelo scanners, os alimentos são os esconderijos preferidos — há registros até de linguiças recheadas com os comprimidos azuis. Considerando-se que a pílula virou moeda de troca nas cadeias, boa parte das tentativas de enganar a fiscalização está tendo êxito, o que explica a alta das ações do Viagra na bolsa de valores dos presídios.

Fonte: veja.abril.com.br

Gilmar Mendes diz que influencer Mariana Ferrer foi vítima de 'tortura e humilhação' em audiência sobre estupro

Ministro Gilmar Mendes Foto: Jorge William / Agência O Globo O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes se manifestou nesta terça (3) em suas redes sociais sobre a audiência referente a um caso de estupro envolvendo a promoter catarinense Mariana Ferrer, de 23 anos. Ele classificou as cenas da sessão, divulgadas pelo portal Intercept, como "estarrecedoras" e afirmou que a Justiça não deve ser instrumento de "tortura e humilhação".

"As cenas da audiência de Mariana Ferrer são estarrecedoras. O sistema de Justiça deve ser instrumento de acolhimento, jamais de tortura e humilhação. Os órgãos de correição devem apurar a responsabilidade dos agentes envolvidos, inclusive daqueles que se omitiram", escreveu Mendes.

A reação do ministro ocorre logo após a publicação de reportagem do Intercept que revelou a sentença que inocentou o empresário André de Camargo Aranha, acusado de estuprar a jovem durante uma festa em 2018. O juiz Rudson Marcos, da 3ª Vara Criminal de Florianópolis, acatou a argumentação do Ministério Público de que houve "crime culposo", ou seja, quando não há intenção. Não há previsão na legislação para o crime de estupro culposo.

A gravação da audiência mostra o advogado Cláudio Gastão da Rosa Filho expondo fotos sensuais da promoter e fazendo comentários pejorativos sobre sua conduta. Ele chamou as imagens da catarinense de "ginecológicas" e afirmou que "jamais teria uma filha do nível" de Mariana. Em momento algum houve interrupção da fala ou questionamento por parte dos demais presentes na audiência sobre a relação das fotos com o caso.

Após a divulgação do vídeo da audiência, houve indignação nas redes sociais. O assunto "estupro culposo" e a hashtag #justicapormariferrer estão entre os mais comentados do Twitter, mobilizando inclusive celebridades e políticos.

Fonte: epoca.globo.com

Funkeiros viram alvo da polícia a pedido de deputado que rasgou placa de Marielle

Rodrigo Amorim (PSL-RJ) nunca foi investigado por destruir homenagem a vereadora assassinada, mas bastou um pedido dele para a Polícia Civil investigar MCs Cabelinho e Maneirinho por apologia ao crime 

 Dois funkeiros são investigados pela Polícia Civil do Rio de Janeiro por “apologia ao crime”. A iniciativa tem como base notícia-crime de um deputado do PSL contra os MCs Cabelinho e Maneirinho.

Os funkeiros usaram suas redes sociais para denunciar a situação. Cabelinho prestou depoimento nesta quinta-feira (29/10), enquanto Maneirinho foi intimado a prestar esclarecimentos à Civil.

A corporação abriu as investigações devido à uma notícia-crime aberta pelo deputado estadual Rodrigo Amorim, do PSL. Em 2018, ao lado do então candidato ao governo do RJ Wilson Witzel, Amorim quebrou uma placa em homenagem à vereadora Marielle Franco, assassinada a tiros.

Em sua conta no Twitter, o deputado, que foi o parlamentar estadual mais votado do pleito de 2018 no Rio, comemorou a intimação dos MCs. No Facebook, Amorim também postou um vídeo onde chama os funkeiros de “vagabundos travestidos de artistas”.

O funkeiro defensor de drogas e bandidos foi intimado a depor por causa de ofícios que enviei à @PCERJ? Que pena!https://t.co/WxX7H8e9g4 pic.twitter.com/BdtrH0FJtC

— Rodrigo Amorim (@RJRodrigoAmorim) October 29, 2020

Em ofício enviado em julho deste ano para a Comissão de Defesa dos Diretos da Mulher da Alerj, Rodrigo detalha ter denunciado, alémde Maneirinho e Cabelinho, a cantora Ludmilla. Não é a primeira vez que um deputado ataca Ludmilla: o deputado federal Cabo Junio Amaral (PSL-MG) tentou acionar o MPF contra a cantora em dezembro de 2019, também por apologia, mas teve seu pedido rejeitado. Em setembro, Ludmilla entrou com ação no STF contra Junio, acusando o parlamentar de calúnia.

Cabelinho publicou um texto em sua página na rede social Instagram logo depois da ida à polícia. Ao desabafar que negros vindos de favela que conseguem sucesso “para essa gente só pode ser bandido”, atacou as políticas públicas oferecidas às comunidades.

“O Estado nunca me deu nada, pelo contrário: patrocina há décadas o genocídio do meu povo”, disparou, ao citar que existe “uma Agatha e um João Pedro não noticiados por semana” – referência a crianças mortas durante ações em favelas das polícias do RJ.

Cabelinho citou o caso de Rennan da Penha, DJ condenado e preso por sete meses em 2019 sob acusação de apologia ao tráfico, como exemplo de perseguição aos jovens negros de periferia e a cultura funk.

“O que eles querem, de verdade, é prender o que a gente presenta”, afirma. “Quer que eu cante sobre o que, que eu fale sobre o que? Em muitas das minhas letras retrato o que eu vi e vivi, o cotidiano violento de todo morador de comunidade”.

 Maneirinho está um passo atrás de Cabelinho nas investigações, pois recebeu intimação da Polícia Civil para ir prestar depoimento. Também em seu Instagram, o funkeiro publicou o documento com sua convocação.

A investigação segue a mesma linha da feita com Cabelinho: apologia ao crime, em denúncia do mesmo deputado. Nas redes, ele pediu ajuda aos seguidores que acompanham seu trabalho.

“Não posso ser vítima dessa covardia que estão querendo fazer comigo e outros amigos funkeiros”, desabafou, antes de comparar o que acontece quando pessoas de outros contextos sociais retratam o que se passa em favelas.

“Vim da favela, eu não li e nem assisti a realidade nossa. Playboy interpretando o que acontece concorre ao Oscar e nós, daqui, sofremos essa covardia”, afirma.

O advogado Guilherme Pimentel, ouvidor-geral da Defensoria Pública do Rio de Janeiro interpreta as intimações e depoimentos na Polícia Civil do RJ como um combate à cultura da favela.

“Nitidamente é uma onda contra a cultura da favela, não está descolado da criminalização da favela, seletividade que tem sua herança escravocrata e colonial”, analisa Pimentel.

Segundo o advogado, a forma com que é usado o crime de apologia em investigações explicita uma repressão voltada às populações negras. Cita a criminalização da capoeira, do samba e do rap como exemplos para a “continuidade de um processo histórico” que atinge o movimento funk.

Ele cita outras ações da Polícia Civil do RJ contra funkeiros em 2010, como MC Galo, MC Smith e MC Frank. Eles também foram investigados por apologia ao crime organizado, parte deles foram presos.

Recentemente, o MC Poze foi preso por tráfico de drogas e associação, além de apologia. Outro funkeiro, DJ Mozai ficou 9 meses preso preventivamente em processo por associação ao tráfico. A Ponte denunciou o caso de Mozai em 19 de agosto.

À Ponte, o DJ comentou a intimação e depoimento dos MCs. “Essa perseguição aí vem com bastante artistas do funk. Renan da Penha, eu, MC Poze, DJ Yasmin Turbininha e, agora, os MCs Cabelinho e Maneirinho”, detalha.

Segundo ele, existe um medo de voltar a ser alvo pelo seu processo ainda estar aberto. “É bem provável de virem atrás de mim. Não fui condenado ou absolvido, então ainda há muito a acontecer”, afirma.

Guilherme Pimentel usa como exemplo o diretor do filme Tropa de Elite José Padilha. Elenca os crimes de assassinato e tortura cometidos pelo Capitão Nascimento, protagonista do filme, sucesso em todo país e no exterior.

“Jamais se cogitou prender o Padilha ou intimá-lo a responder por apologia cuja obra o personagem é um criminoso, agente do Estado”, diz. “Toda a política criminal, historicamente, foi construída para reprimir populações negras que, lá atrás, eram escravizadas”, emenda.

A Artigo 19, ONG que atua na garantia de liberdades de manifestação e expressão, analisa a intimação de Maneirinho e o depoimento de Cabelinho como uma “ruptura da liberdade”.

Diogo de Sant’Ana, advogado e coordenador do Centro de Referência Legal da Artigo, cita “preocupação” o fato da polícia levar à frente a queixa-crime do deputado Rodrigo Amorim.

“Não há detalhamento de onde vem a apologia nas músicas. Na verdade, a ideia de apologia ao trafico é usada não para fazer combate ao crime, é usada para combater a cultura de uma localidade”, analisa.

Nesta quinta-feira (29/10), a Ponte noticiou que investigações contra professores da AlfaCon, escola ligada ao Grupo Somos Educação e que ensina tortura e execução a futuros policiais, por “apologia ao crime não avançou”. Os professores Evandro Guedes e Norberto Florindo nem sequer foram convocados a prestar esclarecimentos às polícias Civil de São Paulo e Paraná, responsáveis pelas apurações.

A reportagem questionou ao advogado se era possível traçar um paralelo entre os dois casos, com os funkeiros sendo convocados a depor, enquanto os dois professores, ex-agentes públicos de segurança, não.

“O paralelo é ótimo. Não se investigou um caso real do crime de apologia”, pontua Sant’Ana, considerando que a comparação de Maneirinho sobre produções com foco na favela é feita por gente de fora das comunidades.

A Ponte questionou a Polícia Civil do RJ sobre a intimação de Maneirinho e o depoimento de Cabelinho. Em nota, a corporação se limitou a dizer que “instaurou procedimento para apurar eventual prática do crime de apologia ao crime, a partir de notícia crime apresentada pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj)”.

A reportagem tentou contato com o gabinete do deputado Rodrigo Amorim, mas ninguém atendeu os telefonemas. Também enviou e-mail com perguntas e pedido de entrevista e aguarda resposta.

Fonte: ponte.org

Fazer chacina e matar um cego: o currículo de acusações de um ex-PM

Justiça decreta prisão de Gilberto Eric Rodrigues, acusado de matar Rodrigo Barbosa 24 horas antes de participar de chacina que deixou sete vítimas

 O ex-policial militar Gilberto Eric Rodrigues, 32 anos teve a prisão preventiva decretada pela Justiça nesta quarta-feira (28/10), após pedido do DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa) e anuência do Ministério Público, sete anos e nove meses depois da morte de Rodrigo Barbosa, então com 27 anos.

Mesmo o crime ocorrido em janeiro de 2013, a Polícia Civil só concluiu o inquérito e indiciou o ex-militar pela morte de Barbosa e a tentativa de homicídio de seu primo W. C. R., então com 22 anos, em agosto de 2020. O ex-soldado da Polícia Militar, que tem no currículo outras mortes, é foragido da Justiça desde abril de 2015, quando escapou do Presídio Militar Romão Gomes.

A decisão pela prisão preventiva foi acolhida pelo juiz Roberto Zanichelli Cintra, da 1° Vara do Júri da Capital. Em seu despacho, ele afirmou que acatou o pedido do Ministério Público “ante a existência de provas de materialidade e indícios da autoria dos delitos a ele imputados, inferidos, sobretudo, do acervo testemunhal e documentos juntados ao inquérito policial”. No entanto, ele rejeitou a qualificadora de meio cruel.

Gilberto Eric Rodrigues tem extenso currículo como matador. Contra ele também pesa a participação na morte do adolescente Guilherme Silva Guedes, 15 anos, executado em 14 de junho deste ano, na divisa entre São Paulo e Diadema (Grande São Paulo). Além de Guilherme, outras sete pessoas foram vítimas de Gillberto na noite de 4 de janeiro de 2013 em um bar na Rua Reverendo Peixoto da Silva, no Jardim Rosana. Tal crime ficou conhecido como a Chacina do Jardim Rosana, um dos muitos bairros do distrito do Campo Limpo, zona sul da capital paulista.

Rodrigo Barbosa, que era cego, foi morto com um tiro na nuca na Rua Ajuruete, no Jardim Leônidas Moreira, também na região do Campo Limpo, enquanto voltava para sua casa na companhia de um primo. O crime ocorreu por volta das 23h30 do dia 3 de janeiro, exatamente 24 horas antes da chacina promovida por Gilberto Eric Rodrigues e outros sete colegas de farda, segundo investigação policial. Do ponto onde Rodrigo foi morto até o bar em que ocorreu o massacre são 900 metros.

O testemunho de W. à Polícia Civil foi determinante para a identificação de Gilberto. Segundo ele, na noite do crime, jovens conversavam e comiam pizza pela Rua Ajuruete, quando dois veículos passaram a rondar o local. Percebendo não se tratar de moradores, todos resolveram ir embora. No momento que caminhavam para casa, localizada na mesma rua e distante cerca de 50 metros de onde estavam, Barbosa e seu primo foram abordados por dois homens que desceram de um dos dois carros. Barbosa, que havia ficado cego anos antes, após ser baleado durante um roubo que havia praticado, necessitava ser amparado por W.

Consta no processo que, logo após serem abordados, um dos homens perguntou quem tinha passagem. Momento que Barbosa teria dito ter 157 [roubo]. Após silêncio entre todos, um dos criminosos teria dito “caveira”, momento em que Gilberto Eric Rodrigues disparou na altura da nuca do jovem cego. Gilberto ainda mirou contra W., segundo o depoimento, mas como instinto de defesa ele esbarrou no braço do ex-PM, o que faz a arma cair. Diante da ação, ele conseguiu correr, e disse que teria ouvido disparos em sua direção. Algo confirmado pela polícia devido a marcas de balas nas paredes de um corredor.

A suspeita sobre a participação de PMs no assassinato começou a ficar mais clara devido a presença de uma viatura no local pouco tempo depois de Barbosa ser baleado e levado pelos vizinhos ao Pronto Socorro do Hospital do Campo Limpo. Segundo a versão das testemunhas, policiais militares recolheram cápsulas no chão, entregando depois para peritos que chegaram durante a madrugada.

A demora na conclusão do processo, que possui mais de 400 páginas, também pode ter sido motivada pela inércia da Polícia Militar em encaminhar à Polícia Civil os documentos requisitados para o andamento da investigação, como o nome dos PMs que estavam de plantão na data do fato, além de suas fotos e o número da viatura que utilizavam.

Um primeiro pedido foi endereçado ao 37° BPM/M (Batalhão de Polícia Militar Metropolitano), unidade responsável por patrulhar a área, em 19 de abril de 2013, com reiteração em 27 de março de 2014. No entanto, tal pedido só foi vir a ser atendido parcialmente em 7 de janeiro de 2015, quando a escala da PMs foi enviada. As fotos chegaram à Polícia Civil quinze dias depois.

Com a foto de Gilberto Eric, W. não teve dúvidas de que foi ele o autor do disparo que matou seu primo e também o tentou matar.

Mortes e mais mortes

Gilberto Eric Rodrigues é classificado como um “bandidão”, conforme disse à Ponte o delegado Fábio Pinheiro, do DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa) durante entrevista sobre o caso Guilherme Guedes.

Guedes, com 15 anos, foi sequestrado na porta de sua casa, na Vila Clara, zona sul da capital, e encontrado morto horas depois em um terreno no bairro Eldorado, na divisa entre São Paulo e Diadema. Gilberto e o sargento da PM Adriano Fernandes de Campos, dono de uma empresa irregular de segurança, acharam que o menino havia roubado um canteiro de obras em que Campos era responsável pela vigilância. O sargento foi preso.

Antes de participar da morte de Guilherme Guedes, o ex-soldado passou dois anos no Presídio Militar Romão Gomes, na zona norte paulistana, acusado da participação na chacina que deixou sete mortos, entre eles Laércio de Souza Grimas, conhecido por DJ Lah, 33, integrante do grupo de rap Conexão do Morro.

A descoberta da fuga de Gilberto Eric Rodrigues se deu no início da noite de 1° de abril de 2015, durante a contagem de presos. Ele e outro militar pularam uma cerca do presídio. A PM mentiu sobre a fuga, dizendo em documento enviado à Ponte que, dois meses depois do desaparecimento, Gilberto ainda estava preso no local.

A corporação relatou a fuga à Polícia Civil somente 12 dias depois dos dois fugirem. Neste intervalo, os dados pessoas e fotos dos dois não foram inseridas no banco de dados dos procurados no estado.

Procuradas, a Secretaria da Segurança Pública e a Polícia Militar, comandadas pelo governador João Doria (PSDB), não se pronunciaram até a publicação do texto. 

Fonte: ponte.org

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